Vol 7. N?m 20. 2019
MIGRAÇÂO E INTOLERÂNCIA RACIAL COMO FONTES DO APELO DA EXTREMA-DIREITA: UM OLHAR FREUDIANO
Alberto Abad Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) Thaís Marluce Abad Universidade Federal do Pará (UFPA)
Resumen
La victoria del republicano Donald Trump en las elecciones presidenciales americanas de 2016 es un ejemplo del avance de la extrema-derecha en el mundo contemporáneo. Sin embargo, sería un error atribuir esta tendencia a las respuestas de un grupo de personas que se sienten amenazadas por la diseminación de valores progresistas como la protección ambiental, la equidad de género, igualdad racial y derechos iguales para la comunidad LGBT. En este sentido, es importante considerar factores psicológicos que desempeñan un papel esencial en la formación de la mente grupal de la extrema-derecha, y así poder explicar los oxímoros que caracterizan a algunos de los integrantes de esos movimientos: mujeres machistas, negros racistas y homosexuales homofóbicos.
Abstract
The victory of Republican Donald Trump in the 2016 US presidential election is an example of the far-right advance in the contemporary world. However, it would be a mistake to attribute this tendency to the responses of a group of people who feel threatened by the dissemination of progressive values such as environmental protection, gender equity, racial equality and equal rights for the LGBT community. In this sense, it is important to consider psychological factors that play an essential role in the formation of the group mind of the extreme right, so as to explain the oxymorons that characterize some of the members of these movements: macho women, racist blacks and homophobic homosexuals.
Palabras claves
Extrema-Direita; Psicanalise; Grupos; Migração, Far-right; Psychoanalysis; Groups; Migration, Extrema-Derecha; Psicoanálisis; Grupos; Migración

Introdução

No contexto da globalização –definida como a integração transnacional e transcultural de atividades humanas (Al Rodhan, 2006) e denominada por Appadurai (2009) como “uma nova revolução industrial impulsionada por poderosas tecnologias de informação e comunicação” (p. 35)–, percebem-se grandes alterações no cenário político internacional a partir do colapso financeiro de 2008 e da crescente estagnação econômica no Hemisfério Norte: crises cíclicas em países em desenvolvimento; mudanças no fluxo migratório Sul-Sul (Solimano, 2016); modificações das tendências migratórias de estudantes, pessoas talentosas e profissionais a países com maior estabilidade educacional, política, econômica e social; e uma disputa política marcada pelo avanço da extrema-direita, fato que pode observar-se na “inesperada vitória do republicano Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2016 com um discurso sexista, xenófobo e belicista que encorajou movimentos semelhantes em todo mundo” (Charleaux, 2017).
Dentre outros exemplos podemos mencionar: o surgimento de líderes como Viktor Orban que no ano de 2015 começou a construção de um muro eletrificado, coberto com arame farpado e com câmeras de vigilância ao longo da fronteira com a Sérvia, posição que reforçou às políticas migratórias na União Europeia (UE) – “na Hungria [...] foram filmados guardas arremessando comida para os imigrantes como se fossem animais de zoológico” (Beauchamp, 2016); o fortalecimento em 2017 na Alemanha do partido de extrema-direita Anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD) que com 12,6% dos votos conquistou o direito ser representado no parlamento, tornando-se a terceira força no país – o partido tem adotado estratégias contra o crescimento do número de imigrantes na Alemanha como o slogan lügenpresse (imprensa mentirosa) e marchas semanais contra o que denomina “islamização do Ocidente”; o Partido dos Verdadeiros Finlandeses (PS) que é uma força política poderosa de extrema-direita do país com características nacionalistas e de anti-imigração – seu líder, Timo Soini defende a saída da União Europeia, voltar ao Marco Finlandês como moeda nacional e criar uma política mais severa para com os refugiados e migrantes; e mais recentemente, a eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil com um discurso de ódio, xenófobo, racista e desumanizador.
Uma série de políticas migratórias que ao lado de um existente ressentimento branco no continente europeu tem incrementado a proliferação de movimentos de extrema-direita no mundo. Mas, afortunadamente, sua capacidade de conquistar posições políticas reais tem sido limitada até o momento. Porém, tem influenciado decisões importantes como o caso do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), o principal partido anti-imigração da Grã-Bretanha que pelas suas narrativas influenciou aos eleitores ingleses a votar a favor do Brexit.
[...] a retórica xenófoba do UKIP desempenhou um papel fundamental no apoio ao Brexit. O Brexit comandava maiorias em lugares mais pobres como Hull e mais ricos como Runnymede, sugerindo que o fator chave não era a economia (Beauchamp, 2016).
Num primeiro olhar, essa mudança na areia política internacional – a proliferação de partidos de direita – pareceria uma reação por um grande número de pessoas contra a globalização com narrativas que consideram a:
[...] ascensão de Trump, [como] o produto das perdas econômicas sofridas pela classe trabalhadora branca. Estima-se que centenas de milhares de empregos tenham sido perdidos devido à globalização nas últimas décadas, com indústrias como a manufatura absorvendo grande parte da dor. Isso criou um oceano de pessoas iradas e frustradas – principalmente operários e principalmente brancos – que são suscetíveis ao apelo de um líder nacionalista que promete trazer de volta o que eles acham que foi roubado. (Beauchamp, 2016).
Argumentos que consideram que os eleitores brancos são atraídos por partidos racistas por causa de seus problemas econômicos, que tempos difíceis fazem com que eles procurem as minorias e migrantes para culpar por seus problemas, enfim, que a ansiedade econômica, e não uma quebra nas hierarquias de status, está impulsionando a direita radical faz sentido (Beauchamp, 2016), porém não é uma posição totalmente correta:
Pippa Norris, da Universidade de Harvard, e Ronald Inglehart, da Universidade de Michigan analisaram 12 anos de dados da European Social Survey, pesquisando 294.000 entrevistados, para descobrir a relação entre as queixas econômicas e culturais e o apoio à extrema direita europeia. Eles descobriram algo surpreendente: pesquisas anteriores sugerindo que a extrema direita europeia recebe apoio dos perdedores da globalização estava simplesmente errada (Beauchamp, 2016).
Norris e Inglehart (2016) consideram que desde a década dos anos setenta têm-se incrementado políticas de equidade e igualdade de direitos ao redor do mundo: 
[...] uma ênfase crescente em questões como proteção ambiental, maior aceitação de gênero e igualdade racial e direitos iguais para a comunidade LGBT. Essa mudança cultural estimulou uma maior aprovação da tolerância social de diversos estilos de vida, religiões e culturas, multiculturalismo, cooperação internacional, governança democrática e proteção das liberdades fundamentais e dos direitos humanos. Movimentos sociais que refletem esses valores trouxeram para o centro da agenda política políticas como a proteção ambiental, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a igualdade de gênero na vida pública, desviando a atenção das questões clássicas de redistribuição econômica (p. 29).
Contudo, esses avanços também têm estimulado uma série de ressentimentos:
[...] a disseminação de valores progressistas também estimulou uma reação cultural entre pessoas que se sentem ameaçadas por esse desenvolvimento. Cidadãos menos instruídos e mais velhos, especialmente homens brancos, que já foram a cultura majoritária privilegiada nas sociedades ocidentais, ressentem-se de que os valores tradicionais são "politicamente incorretos" [...] passaram a sentir que estão sendo marginalizados em seus próprios países (Norris; Inglehart, 2016, p. 29).
A pesquisa de Norris e Inglehart indica que “considerar que a extrema-direita europeia atrai o apoio dos perdedores da globalização é simplesmente errado” (Beauchamp. 2016), já que as suas conclusões “sugerem que seria um erro atribuir o aumento da extrema-direita diretamente à desigualdade econômica. Fatores psicológicos parecem desempenhar um papel mais importante”. Fatores que podem explicar melhor os oximoros que caracterizam a alguns dos integrantes desses movimentos: mulheres machistas, negros racistas e gays homofóbicos. Fatores psicológicos que também podem esclarecer a violência presente nas décadas dos anos noventa, que produziram uma “uma pletora de exemplos de limpeza étnica, por um lado, e formas extremas de violência política contra populações civis” (Appadurai, 2009, p. 3).
No intuito de analisar as forças situacionais do incremento dos movimentos de extrema-direita no mundo, da construção das identidades predatórias grupais, e das influências da figura central ou líder e no comportamento do indivíduo dentro de um grupo escolheram-se teorias que paradoxalmente foram concebidas há mais de cem anos por intelectuais que puderam observar até predizer os acontecimentos da atualidade. Nesse sentido, e possível que o ser humano, a pesar do seu desenvolvimento tecnológico ainda não tenha aprendido com a história – será que o denominado “fim do humanismo” é um fato? Ou, como Ortega y Gasset comenta:
Eles receberam instrumentos para viver intensamente, mas não sensibilidade aos grandes deveres históricos; neles foram inoculados apressadamente o orgulho e o poder dos meios modernos, mas não o espírito; é por isso que eles não querem nada com o espírito, e as novas gerações querem assumir o controle do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem vestígios antigos, sem problemas tradicionais e complexos (Ortega y Gasset, 1937, p. 70).
Nesse sentido, para analisar como influem nesse ascenso da extrema-direita no mundo contemporâneo é preciso entrar no campo da psicologia grupal e da psicanalise, para responder às perguntas que na época Sigmund Freud colocou: O que é um grupo? Como adquire ele a capacidade de exercer uma influência tão decisiva sobre a vida mental do indivíduo? E qual é a natureza da alteração mental que ele força no indivíduo? Quais são as influências da figura central ou líder? E de que maneira se formam as identidades predatórias (APPADURAI, 2009) cuja construção social requer a extinção do outro?

Psicologia do grupo

O ser humano como ser social, depende e precisa dos intercâmbios interpessoais. Ao viver em grupos: interage, participa, analisa, dialoga, observa, conversa e expressa opiniões. É social não apenas por uma necessidade de sobrevivência, mas porque na interação com outros influencia e é influenciado, ensina e aprende, modela e é modelado. Contudo, nesse convívio, precisa de um conjunto de regras e normas norteadoras que lhe ajudem a interpretar a realidade, e que sirvam de modelos ou diretrizes para seu comportamento na sociedade. Os seres sociais são influenciados pelas percepções, ideias, crenças, narrativas, cognições e julgamentos morais do grupo ao qual pertencem, afetando assim a maneira em que percebem, enxergam e entendem a outras pessoas – em “uma construção compartilhada de significados” (Oliveira, 2006, p. 123).
A psicologia de grupo interessa-se “pelo indivíduo como membro de uma raça, de uma nação, de uma casta, de uma profissão, de uma instituição, ou como parte componente de uma multidão de pessoas que se organizaram em grupo, numa ocasião determinada, para um intuito definido” (Freud, 1921, p. 43). É esse fim o que diferencia uma aglomeração de indivíduos de uma multidão ou grupo psicológico: 
Em certas circunstâncias, e somente nessas circunstâncias, uma aglomeração de homens possui novos caracteres muito diferentes daqueles que compõem essa aglomeração. A personalidade consciente desaparece, os sentimentos e ideias de todas as unidades são orientados na mesma direção. Uma alma coletiva é formada, transitória sem dúvida, mas apresentando caracteres muito claros. A comunidade então se tornou o que, por falta de uma melhor expressão, chamarei uma multidão organizada ou, se preferir, uma multidão psicológica. Forma um único ser e está sujeito à lei da unidade mental das multidões (Le Bon, 1855, p. 17-18).
Le Bon (1855) ao referir-se à multidão psicológica ou grupo psicológico , analisa o conceito de mente grupal, que de forma coletiva, faz pensar e agir ao indivíduo de uma maneira diferente a como pensaria e agiria de maneira individual. De tal modo, o autor oferece um vislumbre da natureza da alteração mental que o grupo força no indivíduo:
A peculiaridade mais notável apresentada por um grupo psicológico é a seguinte: sejam quem forem os indivíduos que o compõem, por semelhantes ou dessemelhantes que sejam seu modo de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o fato de haverem sido transformados num grupo coloca-os na posse de uma espécie de mente coletiva que os faz sentir, pensar e agir de maneira muito diferente daquela pela qual cada membro dele, tomado individualmente, sentiria, pensaria e agiria, caso se encontrasse em estado de isolamento (Le Bon, 1855, p. 19).
Aprofundando o pensamento de Le Bon, Freud considera que o indivíduo, no contexto de um grupo, é colocado sob condições novas que lhe facilitam se liberar das repressões de seus impulsos instintuais inconscientes; sob poderosas forças situacionais (Zimbardo, 2007).
As características aparentemente novas que então apresenta são na realidade as manifestações desse inconsciente, no qual tudo o que é mau na mente humana está contido como uma predisposição. Não há dificuldade alguma em compreender o desaparecimento da consciência ou do senso de responsabilidade, nessas circunstâncias. Há muito tempo é asserção nossa que a “ansiedade social” constitui a essência do que é chamado de consciência (Freud, 1921, p. 46).
Le Bon considera que, em condições grupais, as particularidades dos indivíduos se apagam – que o heterogêneo submerge no que é homogêneo – e que os indivíduos apresentam atributos que não possuíam anteriormente. Nesse sentido, Le Bon considera três fatores que influem nessas novas características: o sentimento de poder invencível, o contágio grupal, e a sugestionabilidade. No relativo ao poder de invencibilidade:
O indivíduo que faz parte de um grupo adquire, unicamente por considerações numéricas, um sentimento de poder invencível que lhe permite render-se a instintos que, estivesse ele sozinho, teria compulsoriamente mantido sob coerção. Ficará ele ainda menos disposto a controlar-se pela consideração de que, sendo um grupo anônimo e, por consequência, irresponsável, o sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos, desaparece inteiramente  (Le Bon, 1855, p. 21).
O segundo fator, ou contágio grupal “deve ser classificado entre aqueles fenômenos de ordem hipnótica” (Freud, 1921, p. 46) “em tal grau, que o indivíduo prontamente sacrifica seu interesse pessoal ao interesse coletivo. Trata-se de aptidão bastante contrária à sua natureza e da qual um homem dificilmente é capaz, exceto quando faz parte de um grupo” (Le Bon, 1855, p, 21). O terceiro fator mencionado por o autor, refere-se à sugestionabilidade do indivíduo em condições grupais:
Uma terceira causa, de longe a mais importante, determina nos indivíduos de um grupo características especiais que são às vezes inteiramente contrárias às apresentadas pelo indivíduo isolado. Aludo àquela sugestionabilidade, da qual, além disso, o contágio acima mencionado não é mais do que um efeito (Le Bon, 1855, p. 21).
Finalmente, Le Bon considera que a predominância da “personalidade consciente” dos indivíduos em condições grupais pode explicar-se da seguinte maneira:
Vemos, então que o desaparecimento da personalidade consciente, a predominância da personalidade inconsciente, a modificação por meio da sugestão e do contágio de sentimentos e ideias numa direção idêntica, a tendência a transformar imediatamente as ideias sugeridas em atos, estas, vemos, são as características principais do indivíduo que faz parte de um grupo. Ele não é mais ele mesmo, mas transformou-se num autômato que deixou de ser dirigido pela sua vontade (Le Bon, 1855, p. 21).
Freud (1921) pondera que para o indivíduo dentro de um grupo, a noção de impossibilidade desaparece porque tem um sentimento de onipotência, contudo, “um grupo é extremamente crédulo e aberto à influência; não possui faculdade crítica e o improvável não existe para ele” (p. 48). Nesse sentido, Lasaga (2006), aponta que Ortega y Gasset, no livro La rebelión de las masas (1937) utiliza a teoria da Gestalt para definir os traços que configuram as homem-massa : o hermetismo – não escutar o que é falado desde fora; o capricho – ação livre em ausência de toda norma, de todo princípio e de toda razão; o gosto pela violência; e o primitivismo – como ignorância da complexidade civilizatória.
Le Bon avalia que dentre as características das multidões podem-se mencionar: “a impulsividade, irritabilidade, incapacidade de raciocinar, falta de julgamento e pensamento crítico e exagero de sentimentos” (p. 25).
Inclinado como é a todos os extremos, um grupo só pode ser excitado por um estímulo excessivo. Quem quer que deseje produzir efeito sobre ele, não necessita de nenhuma ordem lógica em seus argumentos; deve pintar nas cores mais fortes, deve exagerar e repetir a mesma coisa diversas vezes (Freud, 1921, p. 48).
As características de intolerância e de obediência à autoridade são observadas por Freud, que observa que os indivíduos ao reunir-se em grupos, se despojam de “todas as suas inibições individuais e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos, que neles jaziam adormecidos, como relíquias de uma época primitiva, são despertados para encontrar gratificação livre” (Freud, 1921, p. 49). Destarte, um fator que influi na natureza da alteração mental que o grupo força no indivíduo, é o fato que a “capacidade intelectual de um grupo está sempre muito abaixo da de um indivíduo [porém], sua conduta ética pode tanto elevar-se muito acima da conduta deste último, quanto cair muito abaixo dela” (ibidem p. 48, grifo do autor).
Alguns outros aspectos da descrição de Le Bon mostram, a uma clara luz, quão justificada é a identificação da mente grupal com a mente dos povos primitivos. Nos grupos, as ideias mais contraditórias podem existir lado a lado e tolerar-se mutuamente, sem que nenhum conflito surja da contradição lógica entre elas. Esse é também o caso da vida mental inconsciente dos indivíduos, das crianças e dos neuróticos, como a psicanálise há muito tempo indicou (Freud, 1921, p. 49).
Desde a perspectiva psicanalítica, um fator dominante na psicologia das neuroses é a predominância da vida da fantasia e da ilusão nascida de um desejo irrealizado, nesse sentido, os neuróticos são guiados não pela realidade objetiva comum, mas a sua realidade psicológica (Freud, 1921). Por isso, essas características neuróticas podem ser observadas devido a que “os grupos nunca ansiaram pela verdade [...] constantemente dão ao que é irreal precedência sobre o real; são quase tão intensamente influenciados pelo que é falso quanto pelo que é verdadeiro. Possuem tendência evidente a não distinguir entre as duas coisas” (Le Bon apud Freud, 1921, p. 49).

Formação do grupo

No intuito de entender a alteração mental que é experimentada pelo indivíduo pela influência de um grupo, no lugar do termo empregado por Le Bon de sugestão, Freud utiliza o conceito de libido , “que prestou bons serviços no estudo das psiconeuroses, a fim de lançar luz sobre a psicologia de grupo” (Freud, 1921, p. 55), ao serem as relações amorosas e os laços emocionais constituintes da mente grupal . Nesse intuito, Freud dá um exemplo ao considerar a Igreja e o exército como grupos artificiais onde existe uma força externa para impedir que sejam desagregados e para evitar alterações estruturais (ibidem).
Via de regra, a pessoa não é consultada ou não tem escolha sobre se deseja ou não ingressar em tal grupo; qualquer tentativa de abandoná-lo se defronta geralmente com a perseguição ou severas punições, ou possui condições inteiramente definidas a ela ligadas [...] Numa Igreja (e podemos com proveito tomar a Igreja Católica como exemplo típico), bem como num exército, por mais diferentes que ambos possam ser em outros aspectos, prevalece a mesma ilusão de que há um cabeça - na Igreja Católica, Cristo; num exército, o comandante-chefe - que ama todos os indivíduos do grupo com um amor igual. Tudo depende dessa ilusão; se ela tivesse de ser abandonada, então tanto a Igreja quanto o exército se dissolveriam, até onde a força externa lhes permitisse fazê-lo (Freud, 1921, p. 57).
Freud ressalta que nos dois grupos artificiais, os indivíduos estão ligados por “laços libidinais por um lado ao líder (Cristo, o comandante-chefe) e por outro aos demais membros do grupo” (Freud, 1921, p. 58). São esses laços emocionais que explicam as alterações e limitações da personalidade dos sujeitos em condições grupais:
[...] achamos no caminho certo para uma explicação do principal fenômeno da psicologia de grupo: a falta de liberdade do indivíduo num grupo. Se cada indivíduo está preso em duas direções por um laço emocional tão intenso, não encontraremos dificuldade em atribuir a essa circunstância a alteração e a limitação que foram observadas em sua personalidade (Freud, 1921, p. 59).
Os grupos descritos por Freud são dominados por laços emocionais tanto com o líder do grupo, quanto com os outros membros. “A adoração que cem pessoas têm por uma e a mesma pessoa pode fazer dessa pessoa seu líder” (Redl, 1962, p. 74). Assim, as emoções constituem um fator importante na formação dos grupos.
Freud, denominou o líder do grupo a aquela pessoa “em torno da qual o processo formativo do grupo cristaliza” (Redl, 1962, p. 75), deste modo, o “laço mútuo existente entre os membros de um grupo é da natureza de uma identificação baseada numa importante qualidade emocional comum [que] reside na natureza do laço com o líder” (Freud, 1921, p. 66). A identificação, como o autor a considera, é a “mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa. Ela desempenha um papel na história primitiva do complexo de Édipo” (ibidem, p. 64). Portanto, o processo de identificação “esforça-se por moldar o próprio ego de uma pessoa segundo o aspecto daquele que foi tomado como modelo” (ibidem).
Contudo, Redl (1962), pondera que o termo “líder” deve ser utilizado somente em alguns casos, para definir à “figura central” em um tipo de formação grupal específica:
[...] por figura central entende-se pessoa "em torno de quem" os processos formativos de grupo acontecem, o "ponto de cristalização" de todo o assunto. A palavra "central" é simplesmente intencional e não deve ser tomada literalmente. "Focal" pode ser melhor por razões lógicas, mas para fins linguísticos, é insatisfatório (Redl, 1962, p. 75).
Assim sendo, o termo “figura central” é um melhor vocábulo para descrever a aquela pessoa que influencia o processo de formação grupal através da identificação dos seus membros com base nas emoções e cognições grupais.

Influência da figura central

Desde a perspectiva Redliana, existem diferentes tipos de “figuras centrais” que influem na formação do grupo. Nessa classificação, o autor se baseia na metodologia analítica freudiana . Para o autor, a figura central e suas ideias dominantes podem ser positivas ou negativas: “o ódio contra uma determinada pessoa ou instituição poderia funcionar exatamente da mesma maneira unificadora e evocar o mesmo tipo de laços emocionais que a ligação positiva” (Freud, 1921, p. 61).
Desde um ponto de vista psicanalítico, a identificação com a figura central pode ser motivada pelo medo, nesse sentido, os membros do grupo “incorporam o superego da figura central à sua própria forma de identificação a consequência do medo do agressor e, com base nisso, estabelecem emoções de grupo entre si” (Redl, 1962, p. 79). Assim, a formação do grupo pode ser também resultado da incorporação da “personalidade da figura central em seu ideal de ego para desenvolverem as emoções grupais” (ibidem, p. 78). Contudo, a identificação também pode ser “objeto de impulsos agressivos e, através destes, desenvolver emoções grupais” (ibidem, p. 81).
Um aspecto importante na psicologia grupal, baseada nos laços libidinais de seus integrantes, é o medo inconsciente à possibilidade da dissolução do grupo:
No indivíduo, o medo é provocado seja pela magnitude de um perigo, seja pela cessação dos laços emocionais (catexias libidinais); este último é o caso do medo neurótico ou ansiedade. Exatamente da mesma maneira, o pânico surge, seja devido a um aumento do perigo comum, seja ao desaparecimento dos laços emocionais que mantêm unido o grupo, e esse último caso é análogo ao da ansiedade neurótica (Freud, 1921, p. 60).
Esse medo neurótico ou “pânico”, como Freud denomina, pode ocasionar reações grupais extremas do tipo de impulsos cruéis e hostis contra as pessoas que podem colocar em perigo o status quo do grupo. Freud comenta no relativo à Igreja:
O fenômeno que acompanha a dissolução que aqui se supõe dominar um grupo religioso, não é o medo, para o qual falta a ocasião. Em vez dele, impulsos cruéis e hostis para com outras pessoas fazem seu aparecimento, impulsos que, devido ao amor equânime de Cristo, haviam sido anteriormente incapazes de fazê-lo. Mas, mesmo durante o reino de Cristo, aqueles que não pertencem à comunidade de crentes, que não o amam e a quem ele não ama, permanecem fora de tal laço. Desse modo, uma religião, mesmo que se chame a si mesma de religião do amor, tem de ser dura e inclemente para com aqueles que a ela não pertencem. Fundamentalmente, na verdade, toda religião é, dessa mesma maneira, uma religião de amor para todos aqueles a quem abrange, ao passo que a crueldade e a intolerância para com os que não lhes pertencem, são naturais a todas as religiões (Freud, 1921, p. 61).
Desde outra perspectiva, também podem existir reações coletivas extremas contra pessoas – cujas diferencias são pequenas na relação ao grupo– no intuito de uma coesão grupal real ou imaginada. Appadurai (2009), utilizando o aforismo de Philip Gouvitch, sobre Ruanda, comenta que “o genocídio, ao final, e o exercício da construção da comunidade” (p.  7).

Narcissismo das pequenas diferenças

A expressão foi usada por Freud pela primeira vez no artigo “O tabu da virgindade” (1917), como produto de suas observações durante suas sessões de psicoterapia:
Crawley, em linguagem que difere apenas ligeiramente da terminologia atual da psicanálise, declara que cada indivíduo é separado dos outros por um "tabu do isolamento pessoal", e que são precisamente as diferenças menores em pessoas que são de outra forma parecidas com base em sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles. Seria tentador acompanhar essa ideia e derivar desse "narcisismo de pequenas diferenças" a hostilidade que, em todas as relações humanas, vemos contra o sentimento de companheirismo e o mandamento de que todos os homens se amem uns aos outros (Freud D, 1917, p. 199).
Posteriormente o conceito foi utilizado também nos livros “Psicología de massas e analise do eu” (1921) e “A civilização e seus descontentamentos” (1930), onde Freud “claramente mostra a principal função do conceito do narcissismo das pequenas diferências: incrementar a coesao dentro do grupo ao direcionar a agressão para pessoas de fora (Kolstø, 2007, p. 157). O processo anunciado por Freud, refere-se a um mecanismo de defesa inconsciente “pelo qual os indivíduos projetam suas próprias características internas, particularmente as más, no mundo externo e em outras pessoas. Quando mais tarde se deparam com uma pessoa com essas características, não mais as reconhecem como próprias (ibidem, p. 160).
Neste sentido, todo o externo que possa colocar em risco ou ameaçar a integridade do eu, quando colocado “lá fora”, a uma distância segura, e quando usado para comparação com as boas unidades mantidas no interior, aumentam o sentido do eu (Kolstø, 2007). Portanto, segue-se Tais alvos adequados "ruins" contêm os precursores do conceito de um inimigo compartilhado pelo grupo. Destarte, o conceito pode dar luz à violência presente nas décadas dos anos noventa, que produziram exemplos aterrorizadores de limpeza étnica e violência política contra populações civis – o antropólogo Anton Block, no artigo The Narcissism of Minor Differences (1998) considera que as menores diferenças culturais são mais importantes no que  se refere à crueldade, implacabilidade e brutalidade, e como exemplos menciona as guerras civis, ou aos conflitos em Ruanda e na pós-Iugoslávia.
O antropólogo indiano Arjun Appadurai (2009), no intuito de explicar o porquê dessa diferência, considera que “o primeiro passo é reconhecer que existe uma ideia fundamental e perigosa por detrás da própria ideia do Estado-nação moderno, a ideia de um ethos nacional” (p. 3).
Tem sido amplamente notado que a ideia de um ethos nacional, longe de ser uma consequência natural deste ou daquele solo, foi produzida e naturalizada a grande custo, através de retórica de guerra e sacrifício, através de disciplinas punitivas de uniformidade educacional e linguística, e através da subordinação de uma miríade de tradições locais e regionais para produzir indianos ou franceses ou britânicos ou indonésios (Appadurai, 2009, p. 4).
Nesse sentido, no contexto da globalização – os novos fluxos migratórios, a ênfase crescente em questões como proteção ambiental, gênero, igualdade racial e direitos iguais para a comunidade LGBT – produziram condições para o que o antropologo denomina como “ansiedade da incompletude”, ou sentimento de incerteza social sobre as categorias etno-raciais sempre latente no projeto de completa pureza nacional, que está alicerçado nas categorias de “maioria” e “minoria”, no pensamento social liberal; que pode converter-se no caminho para o genocídio, ao serem as minorias um fator de atrito. O autor baseia sua tese na relação:
[...] entre globalização, incerteza e incompletude – nos permite uma maneira de reconhecer quando a ansiedade da incompletude e os níveis inaceitáveis de incerteza de maneiras que desencadeiam a mobilização etnocida em larga escala (Appadurai, 2009. p. 9).
Dessa maneira Appadurai (2009) ao colocar “a minoria como o sintoma, mas a diferença em si como o problema subjacente [...] é a nova marca dos narcisismos predatórios em grande escala de hoje” (p. 11), destarte, definiu as identidades predatórias, como “aquelas cuja construção e mobilização social requerem a extinção de outras categorias sociais próximas, definidas como ameaças à própria existência de algum grupo definido como nós” (p. 51).
Com base na teoria freudiana, todo o externo que possa colocar em risco ou ameaçar a integridade do ethos nacional, é colocado fora, na forma de um inimigo compartilhado pelo grupo, o que ocasiona que sejam escolhidas as minorias e os migrantes, como projeção para culpar por seus problemas.

Considerações finais

Nossa capacidade de engajar e desacoplar seletivamente nossos padrões morais [...] ajuda a explicar como as pessoas podem ser barbaramente cruéis em um momento e compassivas no próximo.
Albert Bandura
A análise da psicologia de grupos e da sua formação torna-se um ponto importante para considerar o avanço da extrema-direita, como realidade histórica, no mundo contemporâneo. A aparição de líderes , ou figuras centrais, com ideias de um ethos nacional “puro” e discursos racistas, sexistas, xenófobos e belicistas, que espalham o ódio contra minorias, funcionam como modelos que de uma maneira unificadora promovem a formação de grupos cujos membros esforçam-se em moldar seu próprio ego segundo as suas características, e neste sentido, incorporam a sua personalidade em seu ideal de ego – incluindo seus impulsos agressivos. Portanto, não é de estranhar que as ideias xenófobas, racistas e belicistas recorram à proliferação do ressentimento e ódio.
Os grupos constroem um tipo de consciência grupal , sacrificando desse modo os interesses pessoais de seus membros a favor do coletivo – e influenciados pela figura central. Isto posto, os seus integrantes, independentemente das suas semelhanças ou não, transformam-se em uma espécie e mente coletiva que pensa, sente e atua de uma forma comum apesar da sua formação, inteligência e história pessoal.
[...] o caráter das pessoas pode ser transformado ao serem imersas em situações que desencadeiam poderosas forças situacionais. Pessoas e situações geralmente estão em um estado de interação dinâmica. Embora você provavelmente pense em si mesmo como tendo uma personalidade consistente ao longo do tempo e do espaço, é provável que isso não seja verdade. Você não é a mesma pessoa em forma individual como quando você está em um grupo [...] quando você está com amigos íntimos ou em uma multidão anônima (Zimbardo, 2007, p. 8).
Poderosas forças situacionais que podem liberar as repressões de seus impulsos instintuais inconscientes que, motivadas pelo medo e/ou pela sua agressividade desenvolvem emoções que fortalecem ao grupo – como Freud menciona, não é difícil entender o porquê desse desaparecimento da consciência e do senso de responsabilidade, ao ser a ansiedade, o medo, e/ou os impulsos instintuais os fatores que constituem sua base comportamental – especificamente porque na condição de grupo anónimo o sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos, desaparece.
O desaparecimento da consciência se deve a que o indivíduo é colocado sob condições que lhe facilitam a liberação de seus impulsos instintuais inconscientes, assim, sua agressividade –ou violência– é desinibida e sua capacidade intelectual grupal se coloca por baixo da capacidade individual. Como comenta Le Bon, a mente grupal faz pensar e agir ao indivíduo de forma diferente de como pensaria e agiria individualmente –torna-se extremamente crédulo sem faculdade crítica– ao apresentar os traços de hermetismo, capricho, gosto pela violência e o primitivismo observados por Ortega y Gasset. Deste modo, é possível explicar a existência de oximoros da forma de: mulheres machistas, negros racistas e gays homofóbicos, ao interior dos grupos extremistas, sem que nenhum conflito surja da contradição lógica entre eles.
Uma das condições que facilitam a liberação desses impulsos é o anonimato (Zimbardo, 2007; Milgram, 1963). No experimento da Prisão de Stanford , Zimbardo observou que “qualquer coisa, ou qualquer situação, que faça as pessoas se sentirem anônimas, como se ninguém soubesse ou se preocupasse de quem elas são, reduz seu senso de responsabilidade pessoal, cria assim o potencial para a ação do mal” (Zimbardo, 2007, p. 301).
Porém, o anonimato, não é suficiente para explicar um comportamento antissocial grupal, é preciso mais um fator: que “uma situação ou alguma agência lhes der permissão para se engajar em ações antissociais ou violentas contra os outros” (Zimbardo, 2007, p. 301), portanto a influencia da figura central, pelo poder da identificação, vai ser determinante nesse intuito, especialmente se apresenta características violentas, belicistas, xenófobas e radicais – portanto, a intolerância racial e religiosa como fontes do apelo à violência influenciam a tendência de um comportamento antissocial e facilitam avanço das ideias da extrema-direita .
Esses fatores influem no sentimento de poder –real ou não real– que esses grupos têm. Defendem ferreamente a sua invencibilidade a pesar de puder não estar baseada na realidade, e mesmo diante de provas no contrário que provenham do mundo exterior –seus esquemas cognitivos permanecem intactos. Esses grupos, devido a sua alta sugestionabilidade, não procuram a verdade per se, eles são influenciados tanto pelo que é real, quanto pelo que é irreal, não sabem distinguir entre ambas coisas, a sua noção de impossibilidade desaparece pelo sentimento de onipotência. Só é preciso, como Freud menciona, que o grupo seja incitado por um estímulo excessivo sem nenhuma ordem lógica em seus argumentos .
Por outro lado, seu duplo laço emocional: identificação com a figura central e com os membros do grupo, influem na falta de liberdade do indivíduo dentro do grupo e, portanto, alicerçam um tipo de medo ou ansiedade coletiva, que ao lado de uma necessidade de sobrevivência, impedem inconscientemente qualquer tentativa de abandonar o grupo –o que significaria uma série de punições e a perseguição dos membros (de forma real ou imaginária). Nesse sentido, é habitual que a figura central esteja respaldada de grupos religiosos extremistas. A própria igreja católica:
[...] para reduzir a propagação do mal nos países católicos, a solução proposta era encontrar e eliminar as bruxas. O que era necessário era um meio de identificar as bruxas, convencê-las a confessar a heresia e depois destruí-las. O mecanismo para a identificação e destruição de bruxas (que em nossos tempos pode ser conhecido como o programa WID) era simples e direto: descobrir espiões que entre a população eram bruxos, testar suas naturezas de bruxas ao obter confissões usando várias técnicas de tortura e matar aqueles que falharam no teste (Zimbardo, 2007, p. 9).
Posto isto, qualquer pessoa externa que possa colocar em risco o grupo, terá como resposta impulsos cruéis e hostis para aqueles indivíduos que não pertencem à sua “comunidade”. Desse modo, essa “religião” tende a ser dura, inclemente e cruel para com aqueles que a ela não pertencem, essa é base da intolerância racial e religiosa que é utilizada pelos grupos de extrema-direita para justificar suas ideologias que influem na percepção de seus membros.
Qualquer posição que contradiga a percepção do grupo, e que coloque em risco sua unidade, faz que seus membros se “despojem de todos seus instintos cruéis, brutais e destrutivos que jaziam adormecidos” (Freud, 1921, p. 49). Este tipo de grupos, ao serem questionados, mostram uma incapacidade de raciocínio, uma tendência à irritabilidade, à impulsividade e falta de pensamento crítico; justificam suas ações com argumentos que culpabilizam seus problemas políticos, econômicos, culturais e sociais a minorias como negros, indígenas, LGTBI –que podem, ou não, ser minorias no país– impulsionando à direita radical a conquistar posições políticas em cada vez maior número de países no mundo, que pela sua instabilidade política, econômica e social impulsionam novos fluxos migratórios. Criam-se estereótipos que justificam a segregação desses grupos pela posição belicista, xenófoba e radical da figura central.
Quando uma elite de poder quer destruir uma nação inimiga, ela procura especialistas em propaganda para criar um programa de ódio. O que é preciso para os cidadãos de uma sociedade odiarem os cidadãos de outra sociedade na medida em que eles querem segregar, atormentar e até matá-los? Requer uma "imaginação hostil", uma construção psicológica que está profundamente enraizada em suas mentes por propaganda que transforma os outros em "O Inimigo" (Zimbardo, 2007, p. 11).
Na atualidade a medias sociais possuem a característica de poder de estar presentes em todo momento, e a toda hora, facilitando a propagação de mensagens, de estereótipos e “imagens visuais dramáticas do inimigo em cartazes, televisão, capas de revistas, filmes e a Internet imprimem nos interiores do sistema límbico , no cérebro primitivo, com as poderosas emoções do medo e do ódio” (Zimbardo, 2007, p. 11), uma alternativa moderna da lügenpresse.
Finalmente, é importante considerar que o homem não é o “nobre selvagem primitivo” de Rousseau, nem nossa espécie é movida por impulsos hostis e desejos desmedidos a menos que sejam transformados pela educação, religião ou família; são, as forças situacionais, o contexto, as circunstâncias sociais e o momento histórico, os fatores que determinam nossa cognição, influindo assim em nossos pensamentos e nossas ações.

Referências bibliográficas

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Doravante, neste artigo, no intuito de evitar confusões conceituais, utilizar-se-á a expressão “grupo” como sinónimo de multidão psicológica ou grupo psicológico.

Ortega e Gasset –que conhecia a psicólogos como Kohler, Wertheimer e Koffka– com base na teoria gestáltica, considera que é necessário observar todos os fatores para entender o comportamento do homem-massa (LASAGA, 2006). O que é coerente com o postulado da teoria gestáltica no referente a que o todo é diferente à suma das suas partes.

Ortega y Gasset (1937) considerava que, a diferencia do passado, onde “viver significava para o homem encontrar ao redor dificuldades, perigos, escassezes, limitações de destino y dependência, o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas, seguro, onde não se depende de ninguém” (p. 82). A vida do humano se “mundializou (sic), [...] cada indivíduo mora habitualmente no mundo todo” (p. 50), o homem, “conta com um âmbito de possibilidades fabulosamente maior que nunca. Na ordem intelectual, encontra mais caminhos de possível ideação, mais problemas, mais dados, más ciências, mais pontos de vista (p. 55). Porém, Ortega y Gasset comenta, “não quero dizer com isso que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos. Não tenho falado da qualidade da vida presente, mas só do seu crescimento, de seu avanço quantitativo [...] a consciência do homem atual, seu tom vital, que consiste em se sentir com maior potencialidade que nunca e parece-lhe todo o pretérito como afetado de nanismo” (p. 57). “O homem-massa é o homem cuja vida carece de projetos y vá à deriva” (p. 67), “tem ferramentas para viver intensamente, porém sem sensibilidade para os grandes deveres históricos (p. 70). A “vida se apresentou ao homem-massa como isenta de impedimentos (p. 75). Destarte, dentre os traços do homem-massa actual estão “a livre expansão de seus desejos vitais e a radical falta de gratidão para o que tem feito possível a facilidade de sua existência. Esses traços compõem a conhecida psicologia do menino mimado [...] chega a crer efetivamente que só ele existe, y se acostuma a não contar com os outros, sobretudo a não contar com ninguém superior a ele” (p. 80). “Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar, y ao mesmo tempo, não são solidárias às causas desse bem-estar” (p. 82).

Libido é expressão extraída da teoria das emoções. Damos esse nome à energia, considerada como uma magnitude quantitativa (embora na realidade não seja presentemente mensurável), daqueles instintos que têm a ver com tudo o que pode ser abrangido sob a palavra “amor”. O núcleo do que queremos significar por amor consiste naturalmente (e é isso que comumente é chamado de amor e que os poetas cantam) no amor sexual, com a união sexual como objetivo. Mas não isolamos disso –que, em qualquer caso, tem sua parte no nome “amor”– por um lado, o amor próprio, e, por outro, o amor pelos pais e pelos filhos, a amizade e o amor pela humanidade em geral, bem como a devoção a objetos concretos e a ideias abstratas (Freud, 1921, p. 55 grifo do autor).

Freud observa que “as autoridades não fazem menção a nenhuma dessas relações. Aquilo que lhes corresponderia está evidentemente oculto por detrás do abrigo, do biombo da sugestão” (Freud, 1921, p. 56).

Metodologia que inclui “a suposição do efeito atenuador da culpa e do medo [...] e da compulsão à repetição” (REDL, 1962, p. 76).

Uma das instâncias da personalidade tal como Freud a descreveu no quadro da sua segunda teoria do aparelho psíquico: o seu papel é assimilável ao de um juiz ou de um censor relativamente ao ego, Freud vê na consciência moral, na auto-observação, na formação de ideais, funções do superego. Classicamente, o superego é definido como o herdeiro do complexo de Édipo, constitui-se por interiorização das exigências e das interdições parentais (Laplanche; Pontalis, 1988, p. 643).

“Sigmund Freud utilizou essa expressão para designar o modelo de referência do eu, simultaneamente substituto do narcisismo perdido da infância e produto da identificação com as figuras parentais e seus substitutos sociais” (Roudinesco; Plon, 1997, p. 362).

Freud, antecipando-se ao mundo contemporâneo, e a Segunda Guerra Mundial comenta: “Se outro laço grupal tomar o lugar do religioso– e o socialista parece estar obtendo sucesso em conseguir isso –haverá então a mesma intolerância para com os profanos que ocorreu na época das Guerras de Religião, e, se diferenças entre opiniões científicas chegassem um dia a atingir uma significação semelhante para grupos, o mesmo resultado se repetiria mais uma vez com essa nova motivação (Freud, 1921, p. 61).

Ortega y Gasset considera que os lideres demagógicos influem no homem-massa devido a que eles são inerciais, (Lasaga, 2009).

Um conceito similar é a sintonia, “aquilo que é definido pelos atributos do grupo como um grupo, isto é, por suas performances medidas como um todo integrado [...] modalidades cognitivas, temperamentais e dinâmicas (Cattell, et al, 1962, p. 305). Assim pode ser definido como as tendências comportamentais de um grupo que correspondem à personalidade em um indivíduo.

Especialmente na era das redes sociais.

Liderado pelo psicólogo Philip Zimbardo e uma equipe de pesquisadores da Universidade de Stanford no ano 1971, com alicerces na Teoria da des-individualização de Le Bon que considera que os integrantes de um grupo ao perder a sua identidade pessoal e senso de responsabilidade facilitam o surgimento de impulsos antissociais. No experimento, foram contratados voluntários psicologicamente estáveis e com boa saúde para fazer papéis de guardas e prisioneiros em uma prisão fictícia. Porém, o experimento foi abortado por ficar fora de controle: os prisioneiros sofreram e aceitaram tratamentos humilhantes e sádicos por parte dos guardas – alguns deles apresentaram, inclusive, distúrbios emocionais. Dentre as conclusões do experimento considera-se que o processo de des-individualização da pessoa leva a uma perda de responsabilidade pessoal, reduzindo as consequências de suas ações.

E esse é um dos argumentos, e tópico de preocupação, de Ortega y Gasset ao observar o homem-massa como alvo fácil para colocar ideias de qualquer tipo devido a que “tudo é possível nele”. Se bem é certo que o homem-massa e as minorias são os dois extremos de um conceito ocasional, onde os extremos puros não existem na realidade, mas tem um continuo segundo o qual um país, um indivíduo ou uma instituição de se mover a um ou outro extremo segundo a conjuntura histórica dependendo das qualidades do esforço pessoal no sentido moral e  da razoabilidade como virtude intelectual (Lasaga, 2006).

O ser social entende e compreende aos outros através de esquemas cognitivos ou agrupamentos estruturados de conhecimentos localizados na memória de longa duração, os quais são as regras e normas norteadoras que lhe ajudam a interpretar a realidade e influem no desempenho mental. Os esquemas cognitivos “equivalem a um quadro de referência ou uma espécie de teoria particular do indivíduo” (Glaser; 1984 apud Bzuneck, 1991, p. 144).

Ao final, entre as características do inconsciente estão a substituição da realidade externa pela psíquica alicerçada pelo princípio do prazer, a ausência de negação e a atemporalidade.

“O Sistema Límbico passou a ser caracterizado como o circuito neuronal relacionado às respostas emocionais e aos impulsos motivacionais, já tendo sido incluídas em seu bojo estruturas como hipotálamo, amígdala, núcleos da base, área pré-frontal, cerebelo e septo” (Esperidião-Antônio et al, 2007, p. 57).

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