ANÁLISE ONTO-HISTÓRICA DO MODELO KRAEPELINIANO DE DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRANSTORNOS MENTAIS

Vanessa Clementino Furtado

Universidade Federal de Mato Grosso e Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Cuiabá — MT Brasil

Resumo

O pre­sente arti­go visa a apre­sen­tar uma análise onto-históri­ca do mod­e­lo krae­pelini­ano de diag­nós­ti­co em saúde men­tal. Emil Krae­pelin, fun­dador da Psiquia­tria Mod­er­na, uti­lizan­do-se do mod­e­lo wund­tiano de intro­specção, desen­volveu um méto­do de diag­nós­ti­co que é refer­ên­cia até os dias atu­ais, na for­ma hegemôni­ca de se faz­er diag­nós­ti­co em saúde men­tal, por ser con­sid­er­a­da uma teo­ria “neu­tra” e “a‑histórica”. Con­tu­do, o que pre­tendemos demon­strar neste tra­bal­ho é que o mod­e­lo krae­pelini­ano não é nem a‑histórico, tam­pouco, neu­tro. Para tan­to, anal­isamos seus ref­er­en­ci­ais epis­te­mológi­cos bus­can­do desve­lar sua ontolo­gia e, com base na Ontolo­gia do Ser Social de Lukács, da teo­ria marx­i­ana sobre a natureza do ser humano e dos apon­ta­men­tos que Vygot­s­ki tece acer­ca do mod­e­lo krae­pelini­ano, pre­tendemos cap­tar e apre­sen­tar os lim­ites teóri­co-metodológi­cos de Krae­pelin, e traçar cam­in­hos de análise que pos­sam aux­il­iar na apreen­são do fenô­meno das psi­coses em sua total­i­dade, a par­tir do con­hec­i­men­to de sua realidade.

Palavras-Chave: Méto­do krae­pelini­ano; Ontolo­gia do Ser Social; Psicoses

Resumen

Este artícu­lo tiene como obje­ti­vo pre­sen­tar un análi­sis onto­históri­co del mod­e­lo diag­nós­ti­co krae­pelini­ano en salud men­tal. Emil Krae­pelin, fun­dador de Mod­ern Psy­chi­a­try, uti­lizan­do el mod­e­lo de intro­spec­ción de Wundt, desar­rol­ló un méto­do de diag­nós­ti­co que es un ref­er­ente en la actu­al­i­dad, en la for­ma hegemóni­ca de hac­er diag­nós­ti­cos en salud men­tal, ya que se con­sid­era una teoría “neu­tral” y “a‑histórico”. Sin embar­go, lo que pre­tendemos demostrar en este tra­ba­jo es que el mod­e­lo krae­pelini­ano no es ni a‑histórico ni neu­tral. Para ello, anal­izamos sus ref­er­entes epis­te­mológi­cos bus­can­do deve­lar su ontología y, a par­tir de la Ontología del Ser del Lukács, de la teoría marx­ista sobre la nat­u­raleza del ser humano y de los apuntes que hace Vygot­sky sobre el mod­e­lo krae­pelini­ano, pre­tendemos cap­tar y pre­sen­tar los límites teóri­co-metodológi­cos de Krae­pelin, y trazar caminos de análi­sis que puedan aux­il­iar en la apre­hen­sión del fenó­meno de las psi­co­sis en su total­i­dad, a par­tir del conocimien­to de su realidad.

Pal­abras clave: méto­do krae­pelini­ano; Ontología del Ser Social; psicoses

Abstract

This arti­cle aims to present an onto­his­tor­i­cal analy­sis of the Krae­pelin­ian diag­nos­tic mod­el in men­tal health. Emil Krae­pelin, founder of Mod­ern Psy­chi­a­try, using Wundt’s intro­spec­tion mod­el, devel­oped a diag­nos­tic method that is cur­rent­ly a ref­er­ence, in the hege­mon­ic way of mak­ing diag­noses in men­tal health, since it is con­sid­ered a “neu­tral” the­o­ry and “a‑historical”. How­ev­er, what we intend to demon­strate in this paper is that the Krae­pelin­ian mod­el is nei­ther a‑historical nor neu­tral. To do this, we ana­lyze its epis­te­mo­log­i­cal ref­er­ences seek­ing to reveal its ontol­ogy and, based on Lukác­s’s Ontol­ogy of Being, the Marx­ist the­o­ry on the nature of the human being and Vygot­sky’s notes on the Krae­pelin­ian mod­el, we intend to cap­ture and present the the­o­ret­i­cal-method­olog­i­cal lim­its of Krae­pelin, and trace paths of analy­sis that can help in the appre­hen­sion of the phe­nom­e­non of psy­chosis in its entire­ty, from the knowl­edge of its reality.

Key­words: Krae­pelin­ian method; Ontol­ogy of the Social Being; psychosis

Introdução

Neste arti­go visamos a apre­sen­tar uma análise ontológ­i­ca e históri­ca das con­tribuições Emil Krae­pelin à luz do debate críti­co e dialéti­co, trazen­do con­tribuições do ref­er­en­cial vygot­skiano, bem como do escopo teóri­co-críti­co pro­duzi­do a par­tir do méto­do mate­ri­al­ista históri­co e dialéti­co e da com­preen­são da ontolo­gia do Ser Social de Lukács.

A escol­ha desse autor –Krae­pelin– se dá jus­ta­mente porque é seu tra­bal­ho que fun­da­men­ta a Psiquia­tria Mod­er­na. Deste modo, cal­cadas no méto­do mate­ri­al­ista históri­co e dialéti­co, bus­camos anal­is­ar como o con­tex­to históri­co e social da Ale­man­ha no final do sécu­lo xix e iní­cio do sécu­lo xx, bem como, os debates cien­tí­fi­cos da época em torno da relação entre ciên­cia da natureza e ciên­cia do espíri­to, influ­en­ciou a pro­dução teóri­co-metodológ­i­ca de Kraepelin.

Para esta pesquisa se tomou como obje­to de análise o desen­volvi­men­to do méto­do de diag­nós­ti­co desen­volvi­do por Krae­pelin, basea­do na Psi­colo­gia Exper­i­men­tal e no Para­lelis­mo Psi­cofísi­co de Wundt, a par­tir do qual ele desen­volveu o diag­nós­ti­co difer­en­cial entre as psi­coses-demên­cia pre­coce e psi­cose manía­co depres­si­va. Isto porque, é a par­tir dessas inves­ti­gações que o autor pôde con­stru­ir, então, as bases da mod­er­na Psiquia­tria, como afir­mam Heck­ers, Engstrom e Kendler (2021); Short­er (2015); Berrios e Hauser (2013); Jablensky (2207); Deck­er (2007).

A análise ontológ­i­ca e históri­ca desse fenô­meno e como esta man­i­fes­tação de sofri­men­to psíquico vem sendo trata­da pelas áreas das ciên­cias da saúde de for­ma hegemôni­ca, basea­da, ain­da, nos fun­da­men­tos krae­pelini­anos, é essen­cial para que pos­samos com­preen­der as for­mas, não ape­nas, como a ciên­cia tem se ocu­pa­do deste tipo de prob­le­ma no cam­po da teo­ria, mas tam­bém na prática.

Emil Kraepelin e o desenvolvimento da Psiquiatria moderna

As primeiras descrições sobre o fenô­meno de transtorno men­tal que acomete jovens, ado­les­centes, recém ini­ci­a­dos na idade adul­ta, hoje chama­da esquizofre­nia, são feitas por Morel em 1851, quan­do ele rela­ta esta­dos suces­sivos de decadên­cia cere­bral na entra­da da idade adul­ta. Já em 1896, Krae­pelin denom­i­na estes esta­dos descritos como demen­tia prae­cox, e esta­b­elece que os critérios essen­ci­ais dis­crim­i­na­tivos deste diag­nós­ti­co eram evo­lu­tivos e pode­ria chegar até um quadro grave de degen­er­ação cere­bral. O mod­e­lo diag­nós­ti­co de Krae­pelin rep­re­sen­ta um salto qual­i­ta­ti­vo na tax­ono­mia, epi­demi­olo­gia e diag­nós­ti­co em psiquia­tria em relação aos mod­e­los vigentes na época, como Esquirol e Morel.

Esse é o mod­e­lo diag­nós­ti­co que domi­nou todo o iní­cio do sécu­lo xx e se tornou a prin­ci­pal base para as alter­ações sofridas, em 1980, pelo Man­u­al Diag­nós­ti­co e Estatís­ti­co de Transtornos Men­tais da Asso­ci­ação Amer­i­cana de Psiquia­tria-APA o DSM que, naque­le momen­to, esta­va em vias de pub­li­cação de sua ter­ceira edição. De acor­do com Short­er (2015): “Com seu famoso livro-tex­to, a par­tir de 1883, Krae­pelin con­ce­beu a primeira clas­si­fi­cação mod­er­na de doenças psiquiátri­c­as; muitos ele­men­tos foram incor­po­ra­dos ao DSM, e Krae­pelin se ele­va hoje sobre o cam­po da mes­ma for­ma que Freud fez uma vez.” (p. 21). Neste sen­ti­do Heck­ers et ali. (2021) afir­mam: “A estru­tu­ra e o mapa con­ceitu­al de nos­so atu­al sis­tema de diag­nós­ti­co em psiquia­tria remon­tam a Emil Krae­pelin (1856–1926).” (p. 01).

Esta alter­ação mar­ca a forte influên­cia do movi­men­to denom­i­na­do “neo-krae­pelini­ano” que a psiquia­tria car­rega até os dias atu­ais. Esta mudança rep­re­sen­tou, na práti­ca, a exclusão das inter­pre­tações psi­canalíti­cas[1] e/ou sub­je­tivis­tas dos sofri­men­tos psíquicos nos man­u­ais de diag­nós­ti­cos psiquiátri­cos, sob a jus­ti­fica­ti­va da lóg­i­ca neu­tral­i­dade cien­tí­fi­ca, (re)posicionando a psiquia­tria no cam­po das ciên­cias mod­er­nas de obser­vação e análise de dados, bem como, sob influên­cia dos novos trata­men­tos que sur­giam na época, por exem­p­lo, o uso da insuli­na para dia­betes, como apon­ta Short­er (2015): “Os novos trata­men­tos colo­caram em risco a pri­mazia da psi­canálise, com sua lim­i­ta­da pale­ta diag­nós­ti­ca de “psi­coneu­rose”, e des­en­cadear­am um novo gos­to por “cor­tar a natureza nas artic­u­lações”, ou encon­trar diag­nós­ti­cos que cor­re­spon­dam a enti­dades de doenças nat­u­rais.” (p. 22)

Nova­mente, na história da psiquia­tria, se vê os esforços de seus pesquisadores em cam­in­har ao lado das ciên­cias médi­cas em ger­al, impor­tan­do, inclu­sive seus méto­dos de trata­men­to, que ago­ra eram pos­síveis por meio da injeção de sub­stân­cias sin­te­ti­zadas pelos lab­o­ratórios far­ma­cêu­ti­cos. Assim, retomar o mod­e­lo krae­pelini­ano que tin­ha tam­bém por obje­ti­vo acom­pan­har as out­ras áreas da ciên­cia médi­ca, mas além dis­so, tal como as out­ras áreas da med­i­c­i­na, com­preende a patolo­gia como desen­volvi­men­to nat­ur­al, inscri­ta em um sub­stra­to biológi­co cuja pesquisa empíri­ca e descrição sin­toma­tológ­i­ca dev­e­ria, por­tan­to, seguir os padrões das ciên­cias naturais.

Neste sen­ti­do, Heck­ers et ali. (2021) afir­mam: “Como avaliamos o esta­do da psiquia­tria ago­ra, 100 anos após o arti­go de Krae­pelin? Por um lado, o debate sobre a val­i­dade e util­i­dade da clas­si­fi­cação psiquiátri­ca con­tin­ua ina­baláv­el.: (p. 06)

São estas as ideias que bal­izam os esforços para a pro­dução do man­u­al de psiquia­tria em sua ter­ceira edição, como avalia Deck­er (2007):

O DSM-III e o DSM-III‑R foram clas­si­fi­cações neo-krae­pelini­anas por serem des­critivos, evi­tan­do eti­olo­gias psi­canalíti­cas, enfa­ti­zan­do que a psiquia­tria era deci­di­da­mente uma parte da med­i­c­i­na e enfa­ti­zan­do a importân­cia de estu­dos de segui­men­to e histórias famil­iares. Os DSMs, no entan­to, não seguiram Krae­pelin de uma maneira impor­tante: eles se recusaram a espec­u­lar sobre a eti­olo­gia, algo que Krae­pelin fez livre­mente. (p. 354)

Assim, val­i­dan­do a afir­mação de BERRIOS & HAUSER (2013): “A dico­to­mia krae­pelini­ana (de demên­cia pre­coce e da lou­cu­ra manía­co-depres­si­va) con­tin­ua a ser con­sagra­da no pen­sa­men­to psiquiátri­co e, com pou­cas exceções, con­tro­la as pesquisas neu­ro­quími­cas e genéti­cas. A psiquia­tria ain­da vive em um mun­do krae­pelini­ano e seus prat­i­cantes não podem escapar da ofus­cante adoção de sua ‘epis­teme.” (pág. 127).

Fre­itas e Ama­rante asseveram:

Mas por que Krae­pelin, e não Freud, Bleuler ou Jaspers — out­ros grandes nomes da área psi? Sim­ples­mente porque a ele deve­mos a abor­dagem até hoje dom­i­nante para a con­strução de cat­e­go­rias diag­nós­ti­cas. E qual a lóg­i­ca apli­ca­da por ele? A mes­ma da med­i­c­i­na, em ger­al; aque­la com qual qual­quer estu­dante de med­i­c­i­na lida des­de o iní­cio de seus estu­dos, qual seja: proces­sos semel­hantes de doenças lev­am a man­i­fes­tações semel­hantes — sob a for­ma de sin­tomas; o que, por sua vez, impli­ca uma supos­ta anato­mia patológ­i­ca, bem como uma supos­ta eti­olo­gia. (FREITAS & AMARANTE, 2015 p.48–49)

A importân­cia de Krae­pelin, por­tan­to, está para além do con­ceito de “Demen­tia Prae­cox” no cam­po da Psiquia­tria, mas a história do desen­volvi­men­to deste con­ceito pelo autor se con­funde mes­mo com a história da própria psiquia­tria mod­er­na enquan­to ciên­cia. Podemos afir­mar que: é com Krae­pelin que a Psiquia­tria alcançará sta­tus de ciên­cia, aos moldes pos­i­tivista, apoian­do-se no ref­er­en­cial teóri­co-metodológi­co da recém cri­a­da ciên­cia psi­cológ­i­ca de Wundt. Por esta razão, ele é con­sid­er­a­do cri­ador da Psiquia­tria Mod­er­na, pois foi quem desen­volveu uma for­ma metodológ­i­ca de diag­nós­ti­co dos sofri­men­tos psíquicos, que lhe per­mi­tiu solu­cionar um dos prin­ci­pais dile­mas da psiquia­tria de sua época: a difer­en­ci­ação entre a demên­cia pre­coce e a psi­cose manía­co depressiva.

Krae­pelin, com­preen­dia a importân­cia das bases biológ­i­cas e, sobre­tu­do, dos proces­sos fisi­ológi­cos cere­brais como base para os proces­sos psi­cológi­cos. Pelo princí­pio do para­lelis­mo psi­cofísi­co, no entan­to, ele enten­dia que, emb­o­ra os proces­sos cere­brais fos­sem impor­tantes para a com­preen­são dos psi­cológi­cos, estes não podi­am ser reduzi­dos àqueles.

E, a par­tir das obser­vações que faz de seus pacientes, ele traça um rig­oroso sis­tema metodológi­co para estas obser­vações dos quadros clíni­cos, tan­to dos com­por­ta­men­tos pre­gres­sos como da evolução do quadro a par­tir da man­i­fes­tação ini­cial dos sin­tomas. Estas obser­vações tin­ham como base metodológ­i­ca a Psi­colo­gia Exper­i­men­tal, cuja final­i­dade era descar­tar as impressões sub­je­ti­vas e metafísi­cas acer­ca dos sin­tomas expres­sos e, assim, traçar, as leis fun­da­men­tais do desen­volvi­men­to dos transtornos mentais.

De acor­do com CAPONI (2011): “Krae­pelin adverte que todo estu­dante deve com­preen­der que a for­mu­lação de per­gun­tas gerais é inad­e­qua­da, e que uma cor­re­ta anam­nese será aque­la que se desen­vol­va com per­gun­tas especí­fi­cas, bem dirigi­das, que não deix­em lugar para a fala do paciente”[2] (p. 836)

Aqui podemos notar como se expres­sa seu com­pro­mis­so com a obje­tivi­dade, a pon­to de impedir que a própria pes­soa fale além do estri­ta­mente necessário para iden­ti­fi­cação dos sin­tomas, porém, o esforço para elim­i­nação do sub­je­tivis­mo não quer diz­er que Krae­pelin descon­sid­erasse o sujeito da exper­iên­cia, mas sim, com­preen­dia sua relação a par­tir de fatos obje­tivos e não inter­pre­ta­tivos. É necessário, pois, enten­der­mos ess­es cam­in­hos metodológi­cos de modo mais apro­fun­da­do, esmi­uçar suas bases ontológ­i­cas para, a par­tir daí, traçar­mos nos­sas críticas.

Krae­pelin viveu na Ale­man­ha de Bis­mar­ck, no perío­do de inten­so desen­volvi­men­to das neu­ro­ciên­cias, quan­do sur­giam os primeiros estu­dos que rela­cionam os sin­tomas de sofri­men­to psíquico à local­iza­ções estri­tas no cére­bro. É tam­bém o perío­do de desen­volvi­men­to da chama­da Ciên­cia Psi­cológ­i­ca, cujo prin­ci­pal expoente é Wil­helm Wundt (1832–1920). E Krae­pelin não pas­sa indifer­ente a estas teo­rias para desen­volver seu méto­do diag­nós­ti­co, ele foi estu­dante no lab­o­ratório Leipzig de Wundt e foi, então, a par­tir do méto­do wund­tiano que alicerçou as bases de sua psiquiatria.

O méto­do intro­spec­cionista é um méto­do de análise da con­sciên­cia que con­siste em uma for­ma de análise do fenô­meno aparente que, dis­tan­cian­do-se das impressões sub­je­ti­vas, pode­ria mel­hor descr­ev­er o fenô­meno psi­cológi­co. Wundt não ape­nas vai criticar todo o acú­mu­lo de con­hec­i­men­to pro­duzi­do sobre a ciên­cia do espíri­to, como vai traz­er seu eixo cen­tral, ou seja, seu obje­to e méto­do de inves­ti­gação para o cam­po do que era con­sid­er­a­do o saber cien­tí­fi­co da época. Dessa for­ma, bus­ca desen­volver metodolo­gias de análise sim­i­lares às da ciên­cias da natureza ou mel­hor, da physis, para a inves­ti­gação da psique.

Enten­den­do, ambas as ciên­cias (da physis e da psique) como com­ple­mentares para a com­preen­são da exper­iên­cia, sendo que uma se des­ti­na a enten­der o obje­to da exper­iên­cia e a out­ra o sujeito da exper­iên­cia, chegaria-se assim, segun­do Wundt (1911/2018), a mel­hor com­preen­são da real­i­dade: “A sep­a­ração das regiões da exper­iên­cia em ciên­cia nat­ur­al e em psi­colo­gia — ou, de for­ma mais ger­al, em ciên­cia da natureza e em ci6encia do espíri­to — está pre­fig­u­ra­da na com­posição orig­inária de toda exper­iên­cia, cujos fatores são obje­tos da exper­iên­cia e um sujeito da exper­iên­cia.” (p. 50)

Assim, de acor­do com Araújo (2005):

Como a psi­colo­gia não estu­da um obje­to difer­ente do obje­to das ciên­cias nat­u­rais, mas ape­nas a mes­ma exper­iên­cia de um out­ro pon­to de vista, seus méto­dos de inves­ti­gação tam­bém não podem diferir. A psi­colo­gia vai se servir, por­tan­to, dos dois prin­ci­pais méto­dos uti­liza­dos pelas ciên­cias da natureza: o exper­i­men­to e a obser­vação. O exper­i­men­to con­siste na inter­fer­ên­cia proposi­tal (manip­u­lação) do pesquisador sobre o iní­cio, a duração e o modo de apre­sen­tação dos fenô­menos inves­ti­ga­dos (como na físi­ca, na quími­ca e na fisi­olo­gia). A obser­vação pro­pri­a­mente dita ref­ere-se à mera apreen­são de fenô­menos ou obje­tos, sem que haja qual­quer inter­fer­ên­cia por parte do obser­vador (como na botâni­ca, na anato­mia e na astrono­mia)[3]. (p. 96)

Por­tan­to, Wundt vai com­preen­der exper­iên­cia medi­a­ta como aque­la lig­a­da aos obje­tos (con­teú­do obje­ti­vo) inde­pen­den­te­mente da exper­iên­cia sub­je­ti­va e exper­iên­cia ime­di­a­ta como a inves­ti­gação do próprio sujeito da exper­iên­cia. Tais for­mas de exper­iên­cia são com­ple­mentares para o con­hec­i­men­to da real­i­dade, porém, o obje­to da psi­colo­gia aqui são as exper­iên­cias ime­di­atas cujo con­teú­do rev­ela proces­sos e não obje­tos estáveis. (ARAÚJO, 2005).

Ain­da sobre as influên­cias do méto­do wund­tiano, de acor­do com Novel­la e Huer­tas (2010) apon­tam: “Na obra de Krae­pelin, cabe adver­tir tam­bém, … a afinidade com o méto­do exper­i­men­tal de Wil­helm Wundt (1932–1920)”. Pereira (2001) anal­isa que: “Sobre a esteira de Wundt, Krae­pelin esper­a­va que a psi­colo­gia exper­i­men­tal pudesse vir a fornecer à psiquia­tria a ciên­cia de base sobre a qual assen­tar seus fun­da­men­tos, até ali tão incer­tos.” (p. 126).

Krae­pelin nutria uma admi­ração pelo tra­bal­ho de Wundt[4] antes mes­mo de con­hecê-lo pes­soal­mente, e rela­ta a influên­cia deci­si­va dele em sua car­reira, pois foi a par­tir da leitu­ra do tex­to de Wundt sobre a alma dos ani­mais e alma dos seres que Krae­pelin optou pela Psiquia­tria. (KRAEPELIN, 2012).

Tal qual um botâni­co obser­va e anal­isa o desen­volvi­men­to das plan­tas, de sua origem até o está­gio final de vida, Krae­pelin obser­vará o desen­volvi­men­to dos sofri­men­tos psíquicos. (KRAEPELIN, 1908):

O impor­tante do nos­so diag­nós­ti­co con­siste, por­tan­to, nis­so: que ago­ra podemos, no iní­cio da doença, pre­v­er seu resul­ta­do em um esta­do car­ac­terís­ti­co de fraque­za, da mes­ma for­ma que cheg­amos a cer­tas con­clusões prováveis sobre o cur­so pos­te­ri­or da doença em estu­por cir­cu­lar. O prognós­ti­co, no entan­to, não é real­mente sim­ples. Se a demên­cia prae­cox é suscetív­el a uma recu­per­ação com­ple­ta e per­ma­nente respon­den­do às rígi­das deman­das da ciên­cia ain­da é muito duvi­doso, se não impos­sív­el de decidir.[5] (p. nd)

Por isso, ele preza­va pela min­u­ciosa descrição do com­por­ta­men­to pre­gres­so do paciente antes do primeiro episó­dio de sur­to e, pos­te­ri­or­mente, a evolução do quadro, a fim de dar obje­tivi­dade. (PEREIRA, 2001):

Seu méto­do basea­va-se na obser­vação e descrição min­u­ciosa dos fenô­menos clíni­cos, bus­can­do delim­i­tar seus agru­pa­men­tos típi­cos e, sobre­tu­do, sua evolução e seu “esta­do ter­mi­nal”. A colo­cação em evidên­cia de for­mas típi­cas e con­stantes de iní­cio, evolução e de des­fe­cho de uma deter­mi­na­da con­ste­lação patológ­i­ca é o que per­mi­tiria, a seus olhos, pre­cis­ar a “história nat­ur­al” daque­la doença men­tal. Esforça­va-se, pois, por delim­i­tar o per­fil clíni­co das difer­entes enti­dades mór­bidas tan­to em ter­mos sin­crôni­cos quan­to lon­gi­tu­di­nais, situan­do cada uma das patolo­gias em um sis­tema noso­grá­fi­co coer­ente. Essa seria, segun­do o pro­je­to krae­pelini­ano, a eta­pa nosológ­i­ca e clas­si­fi­catória ini­cial, aguardan­do que os avanços da neu­ropa­tolo­gia e da psi­colo­gia exper­i­men­tal pudessem dar a expli­cação cien­tí­fi­ca dos fenô­menos psi­co­pa­tológi­cos iden­ti­fi­ca­dos. A hipótese sub­ja­cente a esse méto­do era a de que mes­mas “enfer­mi­dades” dev­e­ri­am apre­sen­tar histórias nat­u­rais e des­fe­chos clíni­cos semel­hantes. (p. 127).

Krae­pelin é con­tem­porâ­neo de Paul Bro­ca (1824–1880), primeiro neu­roanatomista que con­segue rela­cionar a local­iza­ção de uma lesão cere­bral com a man­i­fes­tação de um sin­toma. Estas ideias da local­iza­ção estri­ta no cór­tex já vin­ham sendo desen­volvi­das na Ale­man­ha, por Franz Joseph Gall (1758–1828), que desen­hou um “mapa do cére­bro” humano, onde era pos­sív­el localizar cada uma das chamadas “fac­ul­dades psi­cológ­i­cas”. Krae­pelin acred­i­ta­va, então, que estes estu­dos pode­ri­am lançar luz ao debate da cor­re­spondên­cia entre proces­sos neu­rofi­si­ológi­cos e proces­sos psi­cológi­cos, e isto com­ple­men­tari­am seu tra­bal­ho. (KRAEPELIN, 1908/2004, p. 87): “Se a doença dan­i­fi­ca fac­ul­dades men­tais (além de seu desa­parec­i­men­to grad­ual provo­ca­do pela fal­ta de uso das funções psíquicas) e como o faz são questões que neces­si­tam de uma inves­ti­gação mais aprofundada.”

No entan­to, Krae­pelin apon­ta­va que os estu­dos até aque­le momen­to não podi­am explicar a relação dire­ta entre danos no teci­do cere­bral com o aparec­i­men­to de transtornos tais como a psi­cose, tão pouco, ele acred­i­ta­va que isto seria possível:

Além do fato de que a relação real entre alter­ações no cére­bro e anom­alias men­tais per­manece total­mente obscu­ra, os resul­ta­dos do exame post-mortem con­tin­u­am a nos deixar total­mente na mão, espe­cial­mente para muitas das for­mas mais fun­da­men­tais de lou­cu­ra. Emb­o­ra sejamos capazes de enten­der pelo menos algum sen­ti­do dos proces­sos patológi­cos no cére­bro dos par­alíti­cos, cer­ta­mente care­ce­mos de fatos con­cre­tos sobre lou­cu­ra, e não menos sobre melan­co­l­ia e fre­n­e­si – fatos que uma com­preen­são fisi­ológ­i­ca dos proces­sos que ocor­rem no teci­do neur­al pode­ria nos dar. … Mas, ao mes­mo tem­po, seria tolice afir­mar que o obje­ti­vo de encon­trar uma base patoanatômi­ca para os transtornos men­tais era em si inat­ingív­el. (Krae­pelin, 1887/2005 p.352)

Por­tan­to, Krae­pelin enten­dia a neu­rolo­gia, assim como a psi­colo­gia e a biolo­gia como ciên­cias aux­il­iares à psiquia­tria. Afir­man­do os fun­da­men­tos de seu men­tor Wundt, era críti­co do que ambos denomi­navam “mate­ri­al­is­mo ingên­uo”, onde a ênfase da pesquisa era a cor­re­lação anato­mopa­tológ­i­ca da lou­cu­ra: “… uma posição de mate­ri­al­is­mo ingên­uo, como fazem vários pro­je­tos de pesquisa especi­fi­ca­mente médi­ca, e supon­ha que o tra­bal­ho da psi­colo­gia e da psiquia­tria se esgote na inves­ti­gação da base físi­ca de nos­sa vida men­tal.” (p.355)

Porque para ele a relação real entre o cére­bro e os proces­sos de adoec­i­men­to não estavam bem explic­i­ta­dos pelas pesquisas que dis­pun­ham naque­le momen­to, mas não descar­ta­va a base biológ­i­ca para estes transtornos. Por este moti­vo, ele asso­ciou a demên­cia pre­coce com uma degen­er­ação cere­bral iner­ente ao proces­so evo­lu­ti­vo da doença, o que não ocor­ria nos quadros manía­cos depres­sivos. Inves­ti­gan­do mes­mo o iní­cio e desen­volvi­men­to dess­es quadros, foi pos­sív­el tecer um diag­nós­ti­co difer­en­cial entre a demên­cia pre­coce e a psi­cose manía­co depressiva.

Ao pas­so que Krae­pelin crit­i­ca­va o “mate­ri­al­is­mo ingên­uo”, tam­bém crit­i­ca­va as cor­rentes psiquiátri­c­as que estavam alicerçadas na base filosó­fi­ca ide­al­ista. E defendia o méto­do de se faz­er ciên­cia, cal­ca­do na base do pos­i­tivis­mo, apon­tan­do para a for­ma mod­er­na de se faz­er ciência:

É claro que, para nos­sos padrões con­tem­porâ­neos, ambos se abstiver­am des­de o iní­cio de uma inves­ti­gação ver­dadeira­mente cien­tí­fi­ca de seu obje­to, que viram os sin­tomas psi­copáti­cos como expressões de um ser tran­scen­den­tal que não esta­va sujeito às leis da natureza e que, por­tan­to, tiver­am que veem os sin­tomas cor­po­rais da lou­cu­ra como irrel­e­vantes e per­iféri­cos e ape­nas vaga­mente asso­ci­a­dos aos aspec­tos-chave de todo o proces­so. A ester­il­i­dade cien­tí­fi­ca[6] de tais pon­tos de vista é respon­sáv­el pelo total descrédi­to em que a psi­colo­gia, como fonte dess­es ensi­na­men­tos duvi­dosos, caiu após a refor­ma médi­ca de nos­sa dis­ci­plina; até ago­ra, a psi­colo­gia espec­u­la­ti­va tem sido o úni­co tipo de psi­colo­gia disponív­el. (KRAEPELIN, 1887/2005 p. 355–356)

Pereira (2001) assev­era: “Bas­tante mar­cante, nesse sen­ti­do, é o esforço de Krae­pelin para evi­tar que qual­quer inter­pre­tação de caráter psi­cológi­co viesse a inter­ferir na obje­tivi­dade do proces­so des­criti­vo. Era, pois, necessário ater-se estri­ta­mente ao plano da exper­iên­cia e da obser­vação .…”. Aqui, nova­mente nota­mos os aspec­tos fun­da­men­tais do méto­do krae­pelini­ano: a atenção estri­ta à exper­iên­cia e ao obje­to, tal como pre­coniza o méto­do da psi­colo­gia exper­i­men­tal wundtiana.

Por­tan­to, quan­do Pereira (2001) desta­ca as esquivas de Krae­pelin às “car­ac­terís­ti­cas psi­cológ­i­cas”, temos que ter em mente que não se tra­ta de toda e qual­quer psi­colo­gia, mas, mais especi­fi­ca­mente, das cor­rentes sub­je­tivis­tas e inter­pre­ta­ti­vas, pois Krae­pelin apos­ta­va na psi­colo­gia, mas na Psi­colo­gia Exper­i­men­tal: “Se é pos­sív­el avançar para mel­hores regras de diag­nós­ti­co psi­co­pa­tológi­co, então deve­mos ter aces­so ao con­hec­i­men­to que per­manece ocul­to à exper­iên­cia práti­ca do dia-a-dia. Parece que os méto­dos inves­tiga­tivos da psi­colo­gia exper­i­men­tal são os mais promis­sores para preencher, pelo menos par­cial­mente, essas lacu­nas em nos­so con­hec­i­men­to.” (KRAEPELIN, 1887/2005 p.356).

De acor­do com Caponi (2011), a pre­ocu­pação prin­ci­pal de Krae­pelin era esta­b­ele­cer uma boa anam­nese famil­iar a fim de iden­ti­ficar a hered­i­tariedade do quadro e isto era pos­sív­el por meio de “uma roti­na defin­i­ti­va, que o estu­dante deve uti­lizar diante de seus pacientes” (KRAEPELIN, 1907 apud CAPONI, 2011 p. 835). (CAPONI, 2011):

… o reg­istro de fatores hered­itários tem abso­lu­to pre­domínio sobre as refer­ên­cias aos con­tex­tos de vida dos pacientes, nos quais apare­cem os sofri­men­tos psíquicos. Essa roti­na metodológ­i­ca tem qua­tro momen­tos ou pas­sos que dev­erão ser suces­si­va­mente segui­dos: (1) a anam­nese famil­iar; (2) a história pes­soal do paciente ante­ri­or à doença; (3) a anam­nese da doença e (4) o sta­tus prae­sens (ter­mo uti­liza­do para des­ig­nar a descrição das condições do paciente no momen­to em que chegou à obser­vação médi­ca. (p. 835).

Pela descrição apre­sen­ta­da da metodolo­gia é como se o desen­volvi­men­to da doença e sua degen­er­ação já estivessem inscritas no sub­stra­to biológi­co do ser humano que a desen­volveu. O que garan­tia a Krae­pelin um cer­to fatal­is­mo, na maneira como lida­va com os prognós­ti­cos para os casos de demên­cia pre­coce. (KRAEPELIN, 1908):

Mas mel­ho­rias não são nada inco­muns, o que na práti­ca pode ser con­sid­er­a­do equiv­a­lente às curas. Ness­es casos, os pacientes sofrem um cer­to com­pro­me­ti­men­to de sua ativi­dade men­tal e emo­cional e de seu poder de ação, e out­ros pequenos restos dos sin­tomas da doença podem talvez ser recon­heci­dos, mas eles podem ser total­mente capazes de preencher seu anti­go lugar em relações sim­ples. Isto é um assun­to mais grave que, na maio­r­ia dess­es casos, a mel­ho­ra é ape­nas tem­porária, e que ess­es pacientes cor­rem grande risco de recaí­das mais cedo ou mais tarde, sem qual­quer causa par­tic­u­lar, e geral­mente sofrem lesões mais graves por sua doença[7]. (p. nd)

É o olhar de Krae­pelin para o prognós­ti­co, onde ele irá encon­trar o prin­ci­pal fator difer­en­cial da demên­cia pre­coce em relação às out­ras psi­coses. Raciocínio este her­da­do de Kalh­baum, como apon­tam Berrios e Hauser (2013) e Short­er (2015).

Como afir­mam Berrios e Hauser (2013): “Ele insis­tiu, no entan­to, em seu obje­ti­vo de cur­to pra­zo de encon­trar uma clas­si­fi­cação vál­i­da. Para faz­er isso ele teve que mudar sua visão sobre “essên­cia”, ou seja, que não era uma estra­da real para a anato­mia, mas ape­nas para o prognós­ti­co.” (p. 136). Essên­cia no sen­ti­do de rep­re­sen­tar a car­ac­terís­ti­ca iner­ente e difer­en­cial a este deter­mi­na­do fenô­meno e de ir para além do sin­toma aparente, dire­cionar suas inves­ti­gações para aqui­lo que está por trás dos sin­tomas. De acor­do com Vygot­sky (1997):

Se o prob­le­ma fun­da­men­tal da inves­ti­gação cien­tí­fi­ca nes­ta área é a questão da natureza, da essên­cia da enfer­mi­dade psíquica, Krae­pelin pos­tu­lou que tal essên­cia das enfer­mi­dades psíquicas é pre­cisa­mente a base do que obser­va­mos na clíni­ca como quadro do com­plexo de sin­tomas, como o cur­so e o resul­ta­do da afecção dada. (p. 284)

Ao tratar, por­tan­to, as car­ac­terís­ti­cas iner­entes como algo fun­da­men­tal para e própria deste deter­mi­na­do fenô­meno ele aca­ba por apre­sen­tar um fator que assume car­ac­terís­ti­cas de essên­cia do fenô­meno, no caso de Krae­pelin esta essên­cia é dada de for­ma nat­ur­al. Como apon­ta Fou­calt (1975):

Se se define a doença men­tal com os mes­mos méto­dos con­ceitu­ais que a doença orgâni­ca, se se iso­lam e se se reúnem os sin­tomas psi­cológi­cos como os sin­tomas fisi­ológi­cos, é porque antes de tudo se con­sid­era a doença, men­tal ou orgâni­ca, como uma essên­cia nat­ur­al man­i­fes­ta­da por sin­tomas especí­fi­cos. (p.nd)

Pois, é exata­mente o que Krae­pelin faz em sua análise sobre a demên­cia pre­coce, ele toma o fato de que a evolução nat­ur­al do quadro tende a uma degen­er­ação cere­bral –o que não ocorre em um quadro de psi­cose manía­co depres­si­va– como a prin­ci­pal e sin­gu­lar car­ac­terís­ti­ca da demên­cia precoce.

Da Análise Onto-Histórica

A com­preen­são da ontolo­gia do mod­e­lo krae­pelini­ano, o desve­la­men­to das car­ac­terís­ti­cas iner­ente a um tipo de sofri­men­to psíquico –as psi­coses– que ele desen­volve são de fun­da­men­tal importân­cia para nos­sa análise que se pre­tende históri­ca e ontológ­i­ca do tra­bal­ho de Krae­pelin. Ele desen­volveu, a par­tir do mod­e­lo wund­tiano de ciên­cia, toda a base da psiquia­tria mod­er­na. for­man­do, assim, as bases da orga­ni­za­ção noso­grá­fi­ca em psiquia­tria como a med­i­c­i­na vin­ha fazen­do com as out­ras for­mas de patolo­gias orgâni­cas, como apon­ta FOUCAULT (1975): “Estas anális­es têm a mes­ma estru­tu­ra con­ceitu­al que as da patolo­gia orgâni­ca: em ambas, mes­mos méto­dos para dis­tribuir os sin­tomas nos gru­pos patológi­cos, e para definir as grandes enti­dades mór­bidas.” (p.nd)

Sem cair numa críti­ca anacrôni­ca, quer­e­mos demon­strar que algu­mas opções teóri­c­as de Krae­pelin sofr­eram grande influên­cia do movi­men­to de desen­volvi­men­to cien­tí­fi­co que ocor­ria na Ale­man­ha a par­tir da base epis­te­mológ­i­ca kan­tiana, mas não ape­nas estas influên­cias, como tam­bém as políti­cas e ideológicas.

Essas influên­cias que estão por trás das for­mas de clas­si­fi­cação krae­pelini­ana têm tam­bém sus­ten­ta­do, até os dias atu­ais a for­ma de se faz­er diag­nós­ti­cos psiquiátri­cos pau­ta­dos no mod­e­lo bio­médi­co: as for­mas da ciên­cia bur­gue­sa, embasadas nos mod­e­los pos­i­tivis­tas e neopos­i­tivis­tas no cam­po filosó­fi­co e o mod­e­lo indi­vid­u­al­izante e biol­o­gizante de com­preen­são do fenô­meno do adoec­i­men­to e sofri­men­to psíquico. For­mas “assép­ti­cas”, no sen­ti­do de não se con­sid­er­ar suas raízes soci­ais e históri­c­as que tratam o fenô­meno do adoec­i­men­to psíquico como qual­quer out­ro fenô­meno nat­ur­al com seu cur­so e desen­volvi­men­tos próprios independente.

Por esta razão, de acor­do com BERRIOS & HAUSER (2013)

A Psiquia­tria ain­da vive em um mun­do krae­pelini­ano e os estu­dos sobre a obra de Krae­pelin são, por con­seguintes, a‑histórico. … No entan­to, Krae­pelin viveu e escreveu durante um perío­do impor­tante da história int­elec­tu­al da Europa e sua obra só pode ser enten­di­da neste con­tex­to. (p. 126)

Mas, o que se com­preende por história para se diz­er que seus estu­dos são “a‑históricos?”

Berrious e Hauser, na citação aci­ma, já nos dão as pis­tas para o entendi­men­to da teo­ria krae­pelini­ana a par­tir de seu con­tex­to social e históri­co. Então, para ten­tar respon­der a esta questão e intro­duzir nos­sa análise aos fun­da­men­tos de Krae­pelin, tomare­mos dois cam­in­hos com­ple­mentares: o primeiro é a nos­sa com­preen­são sobre o que é história a par­tir do nos­so ref­er­en­cial teóri­co; a segun­da reside no mod­e­lo de ciên­cia em que se pau­ta­va Krae­pelin e como este mod­e­lo embasa a ideia de uma teo­ria “a‑histórica” e suas impli­cações nas práti­cas em saúde mental.

A tradição marx­ista, pois, com­preende a história como o proces­so de acú­mu­lo de desen­volvi­men­to das forças pro­du­ti­vas da sociedade, da cole­tivi­dade humana, cujos con­hec­i­men­tos e os pro­du­tos advin­dos desse desen­volvi­men­to é trans­mi­ti­do cul­tural­mente de ger­ação após ger­ação até os dias pre­sentes. A história é tam­bém cri­ação, a par­tir das bases mate­ri­ais já exis­tentes, ela mod­i­fi­ca a ativi­dade já exis­tente e a con­strói de for­ma nova, um proces­so con­tín­uo, tele­ológi­co, de pro­dução e repro­dução da cole­tivi­dade humana. (MARX & ENGELS, 2015):

A história nada mais é do que o suced­er-se de ger­ações dis­tin­tas, em que cada uma delas explo­ra os mate­ri­ais, os cap­i­tais e a força de pro­dução a ela trans­mi­ti­das pelas ger­ações ante­ri­ores; por­tan­to, por um lado ela con­tin­ua a ativi­dade ante­ri­or sob condições total­mente alter­adas e, por out­ro, mod­i­fi­ca com uma ativi­dade com­ple­ta­mente difer­ente as anti­gas condições … . (p. nd)

A história, então, é a história das relações humanas com a natureza, a história está encar­na­da na história do próprio desen­volvi­men­to da humanidade e em suas con­struções soci­ais, cul­tur­ais, em suas insti­tu­ições que garan­tem a pro­dução e repro­dução da vida.

Neste sen­ti­do, Vygot­s­ki (1995) explici­ta a intrínse­ca relação entre a história e sociedade: “… a sim­ples ver­dade de que o desen­volvi­men­to históri­co é o desen­volvi­men­to da sociedade humana e não do puro espíri­to humano, que o espíri­to se desen­volveu ao mes­mo tem­po que se desen­volveu a sociedade.” (p. 27). Por­tan­to, o espíri­to, a ideia, a con­sciên­cia humana se desen­volve em con­jun­to com o desen­volvi­men­to da sociedade humana, ele é condição, é fru­to dos nex­os inter­nos do tra­bal­ho, o espíri­to humano é uma construção.

Des­ta for­ma, é impre­scindív­el tran­scen­der o debate do cam­po das ideias, ou seja, não se pode tratá-las como se fos­sem inde­pen­dentes da mate­ri­al­i­dade de onde emergem. A história da razão é antes de tudo a História do proces­so de acú­mu­lo históri­co de con­hec­i­men­to pro­duzi­do por home­ns e mul­heres a par­tir do desen­volvi­men­to de suas forças pro­du­ti­vas. Nesse sen­ti­do, vale retomar a céle­bre frase de MARX (2015) acer­ca da História: “Os home­ns fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob cir­cun­stân­cias de sua escol­ha e sim sob aque­las com que se defrontam dire­ta­mente, legadas e trans­mi­ti­das pelo pas­sa­do.” (p. 335)

História é proces­so, fru­to de um modo de orga­ni­za­ção social, em con­stante movi­men­to e mudanças, emb­o­ra a con­strução da atu­al­i­dade se dê sob os ombros ou escom­bros do pas­sa­do. É sob esta óti­ca, ou seja, é esta condição de ago­ra, que nos per­mite olhar para o pas­sa­do e anal­is­ar as condições obje­ti­vas e mate­ri­ais em que Krae­pelin con­strói sua teo­ria. Isto inclui as influên­cias epis­te­mológ­i­cas, mas tam­bém as condições políti­cas e sociais.

De acor­do com Tonet (2013):

Pre­tendemos mostrar que a jus­ta com­preen­são da prob­lemáti­ca do con­hec­i­men­to impli­ca que este seja trata­do sem­pre em sua artic­u­lação ínti­ma com o con­jun­to do proces­so históri­co e social, per­mitin­do, assim, com­preen­der a sua vin­cu­lação, mes­mo que indi­re­ta, com deter­mi­na­dos inter­ess­es sociais.

Vale enfa­ti­zar que não se tra­ta de descon­hecer, negar, desqual­i­ficar ou menosprezar os gan­hos obti­dos a par­tir dos out­ros par­a­dig­mas. Tra­ta-se de com­preen­der cada um deles em sua con­fig­u­ração históri­ca e social; com­preen­der sua origem, a sua natureza e a função que cada um deles exerceu e exerce na repro­dução do ser social. (p. 10–11)

Por­tan­to, anal­is­ar os fatores históri­cos e soci­ais para a com­preen­são de um mod­e­lo teóri­co, como o faze­mos aqui com o mod­e­lo krae­pelini­ano, é essen­cial para desve­lar­mos, em últi­ma instân­cia, sua con­cepção do que é o ser humano –sua ontolo­gia– encar­na­da na tradição filosó­fi­ca a que Krae­pelin rep­re­sen­ta: o pos­i­tivis­mo alemão.

Emb­o­ra Krae­pelin se afirme “ateóri­co”, temos apre­sen­ta­do as influên­cias teóri­co-filosó­fi­cas que seu mod­e­lo sofreu, dan­do ênfase aqui às ideias de Wundt. Num esforço de apre­sen­tar suas bases epis­te­mológ­i­cas, históri­c­as e soci­ais, bus­camos descar­ac­teri­zar a noção de um mod­e­lo atem­po­ral e sem visões ide­ológ­i­cas. O tra­bal­ho de Krae­pelin, pois, não é somente his­tori­ca­mente data­da, mas como demon­stram BERRIOS & HAUSER (2013) ele é tam­bém politi­ca­mente influ­en­ci­a­da pela sociedade alemã gov­er­na­da por Bismarck:

A políti­ca bis­mar­ck­iana inva­dia até mes­mo o debate cien­tí­fi­co. A luta entre os local­iza­cionistas (por exem­p­lo, Hitz­ing e Fritsch) ocor­reu em tal con­tex­to. O suces­so dos primeiros deveu-se menos às forças cien­tí­fi­cas (o “exper­i­men­to cru­cial” ain­da não era pos­sív­el no momen­to) do que ao fato de que ela refle­tia o rig­or da cul­tura bis­mar­ck­iana. … Krae­pelin foi um local­iza­cionista con­vic­to e depen­deu do suces­so des­ta teo­ria. (p. 129).

O próprio cam­in­ho que Krae­pelin per­corre, cam­in­hos epis­te­mológi­cos –kan­ti­nano– e de as influên­cias do méto­do wund­tiano se alin­ham aos ideias pos­i­tivis­tas de se faz­er ciên­cia, ideias e méto­dos que ascen­di­am naque­le momen­to histórico.

É inter­es­sante notar como Wundt impor­ta a metodolo­gia de obser­vação da natureza para a dos fenô­menos psíquicos. Vejamos, primeiro, a descrição que TONET (2013) faz acer­ca da metodolo­gia pos­i­tivista e, depois, com­pare­mos com a wundtiano.

O que é o real? A respos­ta é clara e inequívo­ca: ape­nas aqui­lo que pode ser cap­ta­do pelos sen­ti­dos. Pre­tender que exista algo que faça parte da real­i­dade obje­ti­va, mas que somente pos­sa ser cap­tura­do pela razão, seria can­di­datar-se a todo tipo de extravio. Para evi­tar ess­es extravios era pre­ciso ater-se à real­i­dade empíri­ca. (p.37)

E o que Wundt dirá a respeito da Psi­colo­gia e sobre a metodolo­gia de inves­ti­gação de seus fenô­menos? De acor­do com ARAÚJO (2005):

A Psi­colo­gia é uma ciên­cia empíri­ca cujo obje­to de estu­do é a exper­iên­cia ime­di­a­ta. … toda exper­iên­cia pode ser anal­isa­da pelo seu con­teú­do obje­ti­vo (exper­iên­cia ime­di­a­ta) ou sub­je­ti­vo (exper­iên­cia medi­a­ta). No primeiro caso, a ênfase recai sobre os obje­tos da exper­iên­cia (mun­do exter­no), pen­sa­dos inde­pen­den­te­mente do sujeito da exper­iên­cia, enquan­to, no segun­do caso, inves­ti­ga-se o próprio sujeito da exper­iên­cia (mun­do inter­no) em sua relação com os con­teú­dos da exper­iên­cia. (p.94)

O que analoga­mente fará Krae­pelin com a psiquia­tria, pois ele enten­dia, assim como Wundt, que a ciên­cia só era pos­sív­el a par­tir da análise e descrição do fenô­meno que era passív­el de ser cap­ta­do pelos órgãos do sen­ti­do, evi­tan­do o que Tonet aci­ma denomi­nou “extravios”.

No entan­to, o pen­sa­men­to e o faz­er cien­tí­fi­co, não são coisas que pairam, que estão desco­ladas da história e da sociedade, pelo con­trário, são fru­tos de seu tem­po históri­co, de sua sociedade e expres­sa a dinâmi­ca dessa sociedade, inter­ess­es políti­cos e etc. Ain­da que se queira neu­tra, ain­da que se ache passív­el de abstrair-se de toda sub­je­tivi­dade, a ciên­cia é fru­to do pen­sa­men­to de mul­heres e home­ns que a pro­duzem e, con­se­quente­mente, está inscri­ta social e his­tori­ca­mente em seu tem­po. (TONET, 2013 p. 17): “Porém, de novo, são os indi­ví­du­os que elab­o­ram teo­rias, expli­cações e con­cepções de mun­do. Ao elab­o­rarem suas teo­rias, porém, os indi­ví­du­os expres­sam, ao nív­el teóri­co, de modo con­sciente ou não, os inter­ess­es mais pro­fun­dos das class­es sociais “.

Assim, retoman­do à questão que nos colo­camos no iní­cio deste tópi­co, pre­tendemos ter demon­stra­do que não se pode falar em uma teo­ria “a‑histórica” na medi­da em que com­preen­demos que, uma teo­ria é expressão do con­hec­i­men­to da real­i­dade de um obje­to em deter­mi­na­do tem­po históri­co e que, a com­preen­são do real per­pas­sa nec­es­sari­a­mente a com­preen­são desse real em sua total­i­dade, ou seja do obje­to em sua relação com a real­i­dade. E, o sujeito cognoscente está inseri­do nes­sa real­i­dade históri­ca e social, sua capaci­dade de con­hec­i­men­to, a teo­ria e méto­do dos quais lançam mão são inscritos tam­bém em um tem­po históri­co e não podemos igno­rar estes determinantes.

A pseudoconcreticidade e a ciência do imediatismo

O que se deve destacar é que, o méto­do krae­pelini­ano, basea­do na intro­specção de Wundt, visa a estu­dar um fenô­meno a par­tir de sua for­ma ime­di­a­ta, seria a for­ma de se estu­dar o obje­to de for­ma mais pura ou obje­ti­va. E, a par­tir das obser­vações feitas sobre o fenô­meno, descreve-se como este obje­to se apre­sen­ta e se desen­volve ao lon­go do perío­do de obser­vação, não se extrai, por­tan­to, uma teo­ria sobre o obje­to estudado.

Assim, na tradição marx­is­taa, a inves­ti­gação cien­tí­fi­ca tem por obje­ti­vo (NETTO, 2011 p.22): “… indo além da aparên­cia, ime­di­a­ta e empíri­ca –por onde nec­es­sari­a­mente se ini­cia o con­hec­i­men­to, sendo esta aparên­cia um nív­el da real­i­dade e, por­tan­to algo impor­tante e não descartáv­el–, é apreen­der a essên­cia (ou seja: a estru­tu­ra e a dinâmi­ca) do objeto.” .

Neste sen­ti­do, Vygot­sky (1997) afirma:

Quem jul­ga as coisas só por suas man­i­fes­tações cau­sais, o faz erronea­mente, é inevitáv­el que chegue a rep­re­sen­tar de modo fal­so a real­i­dade que estu­da e a dar indi­cações erradas sobre como atu­ar sobre esta real­i­dade. … O que sucede é que a ciên­cia estu­da os vín­cu­los, as dependên­cias, as relações que se encon­tram na base da real­i­dade, que exis­tem entre as coisas.[8] (p. 282)

E deve pro­duzir uma teo­ria sobre o fenô­meno estu­da­do que apreen­da o movi­men­to real do obje­to estu­da­do. (NETTO, 2011):

A teo­ria não se reduz ao exame sis­temáti­co das for­mas dadas de um obje­to, com o pesquisador descrevendo‑o detal­hada­mente e con­stru­in­do mod­e­los explica­tivos para dar con­ta –à base de hipóte­ses que apon­tam para a relação causa/efeito– de seu movi­men­to visív­el, tal como ocorre nos pro­ced­i­men­tos da tradição empirista e/ou pos­i­tivista. (p. 20).

Ora, teo­ria e méto­do não são coisas dis­tin­tas entre si, mas méto­do é pro­du­to das elab­o­rações teóri­co-cien­tí­fi­cas. Assim, a apreen­são do fenô­meno per­pas­sa nec­es­sari­a­mente a con­strução teóri­ca sobre o fenô­meno de modo a apreen­der a dinâmi­ca e real­i­dade deste fenômeno..

Como afir­mamos ante­ri­or­mente, Krae­pelin nos apre­sen­ta uma con­sis­tente descrição de relações de causa e efeito sobre a expressão dos sin­tomas da demên­cia pre­coce, desve­lando assim um dos aspec­tos do movi­men­to do fenô­meno. Como apon­ta Vygot­sky (1997)

Krae­pelin foi o primeiro em cri­ar uma sis­tem­ati­za­ção das enfer­mi­dades psíquicas, que con­ver­teu a man­i­fes­tação da enfer­mi­dade e seus sin­tomas ape­nas em indí­cios, em exte­ri­or­iza­ções, por trás das quais se ocul­ta­va o ver­dadeiro proces­so patológi­co, que está deter­mi­na­do, não somente pelas man­i­fes­tação da enfer­mi­dade em um momen­to dado, como tam­bém, por sua origem, cur­so, resul­ta­do clíni­co, mar­cas anatômi­cas e out­ros ele­men­tos que, toma­dos em con­jun­to, cri­am o quadro com­ple­to da autên­ti­ca for­ma patológ­i­ca.[9] (p. 280).

De todo modo, o que, esta­mos tratan­do como a essên­cia da demên­cia pre­coce, na teo­ria krae­pelini­ana, aqui­lo que a dis­tingue de out­ras psi­coses, ain­da que seja pau­ta­da na real­i­dade e mate­ri­al­i­dade da doença –proces­so de degen­er­ação cere­bral–, não responde a questões impor­tantes sobre o fenô­meno: “O que, então, seria a causa dessa degen­er­ação? Por quais motivos as pes­soas expres­sam tal for­ma de sofri­men­to psíquico com estes sin­tomas? E como adquire? Por que seu desen­volvi­men­to provo­ca um tipo de degen­er­ação cerebral?”

Por isso é fun­da­men­tal con­hecer o obje­to de estu­do em sua total­i­dade, não ape­nas um dos aspec­tos de sua real­i­dade, como o faz Krae­pelin no caso da “demên­cia pre­coce”. E para que seja pos­sív­el essa apreen­são da total­i­dade do fenô­meno é necessário tran­scen­der o cam­po das aparên­cias, tran­scen­der o cam­po do ime­di­ata­mente dado, romper com o “mun­do da pseudo­con­creti­ci­dade” e anal­is­ar as deter­mi­nações soci­ais e históri­c­as do obje­to. Neste sen­ti­do, reit­er­amos, as anális­es krae­pelini­anas con­seguem apreen­der ape­nas parte da essên­cia do fenô­meno, pois a aparên­cia ao mes­mo tem­po que rev­ela esconde sua essência.

É isto que Kosik (1976) denom­i­na “o mun­do da pseudoconcreticidade”:

O com­plexo dos fenô­menos que povoam o ambi­ente cotid­i­ano e a atmos­fera comum da vida humana, que, com a sua reg­u­lar­i­dade, ime­di­atismo e evidên­cia, pen­e­tram na con­sciên­cia dos indi­ví­du­os agentes, assu­min­do um aspec­to inde­pen­dente e nat­ur­al, con­sti­tui o mun­do da pseudo­con­creti­ci­dade. A ele per­tencem: –o mun­do dos fenô­menos exter­nos que se desen­volvem à super­fí­cie dos proces­sos real­mente essen­ci­ais; –o mun­do do trá­fi­co e da manip­u­lação, isto é, da práx­is fetichiza­da dos home­ns (a qual não coin­cide com a práx­is críti­ca rev­olu­cionária da humanidade); –o mun­do das rep­re­sen­tações comuns, que são pro­jeções dos fenô­menos exter­nos na con­sciên­cia dos home­ns, pro­du­to da práx­is fetichiza­da, for­mas ide­ológ­i­cas de seu movi­men­to; –o mun­do dos obje­tos fix­a­dos, que dão a impressão de ser condições nat­u­rais e não são ime­di­ata­mente recon­hecíveis como resul­ta­do da ativi­dade social do homem.

O mun­do da pseudo­con­creti­ci­dade é um claro-escuro de ver­dade e engano. O seu ele­men­to próprio é o dup­lo sen­ti­do. O fenô­meno indi­ca a essên­cia e, ao mes­mo tem­po, a esconde. A essên­cia se man­i­fes­ta no fenô­meno, mas só de modo inad­e­qua­do, par­cial ou sob cer­tos ângu­los e aspec­tos. (p. 15)

Ao pos­tu­lar que essên­cia das enfer­mi­dades psíquicas em seu cur­so e em seu resul­ta­do, Krae­pelin recai exata­mente no mun­do da pseudo­con­creti­ci­dade, pois a “essên­cia” que ele pôde apreen­der é esta essên­cia que Kosik aci­ma denom­i­na inad­e­qua­da, par­cial ou ape­nas lim­i­ta­da a cer­tos aspec­tos. É nis­to, para nós, em que con­siste a críti­ca de vygot­skiana a Krae­pelin quan­do Vygotsky(1997) afir­ma que: “Krae­pelin foi um Dar­win da psiquia­tria mod­er­na, mas sem a teo­ria da evolução. … Segun­do uma feliz expressão de Goethe, con­ver­teu o prob­le­ma em um pos­tu­la­do[10].” (284). Ou seja, o que é próprio às ciên­cias da natureza, cri­ar uma metodolo­gia de inves­ti­gação de fenô­menos e, a par­tir de suas obser­vações e exper­i­men­tos esta­b­ele­cer as leis de fun­ciona­men­to de deter­mi­na­do fenô­meno, ou seja cria-se axiomas que se tomam por uni­ver­sais. Con­forme afir­ma Duay­er (2010):

O pos­i­tivis­mo lógi­co pre­tendeu desem­pen­har essa função nor­ma­ti­va pos­tu­lan­do uma estru­tu­ra ger­al do dis­cur­so cien­tí­fi­co, que, pre­sum­i­da­mente, con­seguirá iso­lar pelo exame das ciên­cias nat­u­rais par­a­dig­máti­cas, em par­tic­u­lar, a físi­ca. Segun­do essa pre­scrição, toda dis­cur­so cien­tí­fi­co apre­sen­ta ou deve apre­sen­tar uma estru­tu­ra hipotéti­co-dedu­ti­va, tam­bém con­heci­da como mod­e­lo HD do dis­cur­so cien­tí­fi­co … sob esta óti­ca, uma teo­ria nada mais é do que um con­jun­to de axiomas, incluin­do ao menos uma lei ger­al, igual­mente axiomáti­ca, con­jun­to do qual é deduzi­da uma série de proposições sobre fenô­menos observáveis … as teo­rias são jus­ti­fi­cadas por sua cor­rob­o­ração pela evidên­cia obser­va­cional. (p.61)

Mas, ain­da assim, foi neste movi­men­to de inves­ti­gação das difer­enças entre as psi­coses que Krae­pelin colo­cou a psiquia­tria nos tril­hos da mod­ernidade e da inves­ti­gação cien­tí­fi­ca, aban­do­nan­do, por um lado, as descrições que tin­ham por obje­ti­vo ape­nas espel­har o fenô­meno, sem qual­quer reflexão sobre as relações que este esta­b­elece com out­ros deter­mi­nantes, como ele próprio fez rela­cio­nan­do os sin­tomas com o cur­so do desen­volvi­men­to das psi­coses e seus resul­ta­dos finais.

Todavia, o exer­cí­cio int­elec­tu­al de trans­por à teo­ria a apreen­são do fenô­meno é tão necessário quan­to descr­ev­er seus sin­tomas e o cur­so do seu desen­volvi­men­to. “Cap­tar o fenô­meno de deter­mi­na­da coisa sig­nifi­ca inda­gar e descr­ev­er como a coisa em si se man­i­fes­ta naque­le fenô­meno, e como ao mes­mo tem­po nele se esconde. Com­preen­der o fenô­meno é atin­gir a essên­cia.” (KOSIK, 1976 p.16) A este tra­bal­ho se deve pôr a ciên­cia para apreen­der a real­i­dade, que é a unidade entre fenô­meno e essência.

O exer­cí­cio do con­hec­i­men­to é tam­bém o exer­cí­cio de con­stru­ir uma teo­ria sobre o obje­to que se estu­da. Porque, “Como a essên­cia –ao con­trário dos fenô­menos– não se man­i­fes­ta dire­ta­mente, e des­de que o fun­da­men­to ocul­to das coisas deve ser descober­to medi­ante uma ativi­dade pecu­liar, tem de exi­s­tir a ciên­cia e a filosofia.” (KOSIK, 1976 p.17)

A ciên­cia, pois, existe jus­ta­mente para apreen­der e explicar os fenô­menos do mun­do, com­par­til­har o con­hec­i­men­to acer­ca do fenô­meno apreen­di­do por meio da teo­ria, a fim de pro­duzir condições obje­ti­vas e mate­ri­ais que pos­si­bilitem a novas inter­venções no meio, cada vez mais ade­quadas, em últi­ma instân­cia, trans­for­mar a realidade:

Porque se a ciên­cia não se ori­en­ta para o con­hec­i­men­to mais ade­qua­do pos­sív­el da real­i­dade exis­tente em si, se ela não se esforça para desco­brir com seus méto­dos cada vez mais aper­feiçoa­d­os essas novas ver­dades, que nec­es­sari­a­mente são fun­dadas tam­bém em ter­mos ontológi­cos e que apro­fun­dam e mul­ti­pli­cam os con­hec­i­men­tos ontológi­cos, então sua ativi­dade se reduz, em últi­ma análise, a sus­ten­tar a práx­is no sen­ti­do ime­di­a­to. (LUKÁCS, 2012 p. 58)

E, neste sen­ti­do, a teo­ria deve expres­sar, por­tan­to, a cap­tação da real­i­dade do fenô­meno, explic­i­tar suas raízes, sua gênese e suas relações para além do obje­to pro­pri­a­mente dito, prin­ci­pal­mente, com­preen­der que o fenô­meno é um todo com­plexo e mul­ti­de­ter­mi­na­do que não se encer­ra em si mes­mo. É fun­da­men­tal ir além da aparên­cia, é impre­scindív­el con­hecer a essên­cia do fenô­meno e suas deter­mi­nações obje­ti­vas e mate­ri­ais, soci­ais e históri­c­as para atuar/construir cam­in­hos de atu­ação que visem a solucionar/transformar o prob­le­ma pos­to na pesquisa. A teo­ria krae­pelini­ana trans­for­mou as relações da psiquia­tria com o fenô­meno das psi­coses, mas ain­da assim não pôde tran­scen­der o “mun­do da pseudo­con­creti­ci­dade”, pois enraíza-se na práx­is fetichizada.

Conclusão

A apreen­são das influên­cias tan­to políti­ca quan­to teóri­c­as dos estu­dos de Krae­pelin nos aju­da a desve­lar os fun­da­men­tos ontológi­cos do mod­e­lo krae­pelini­ano e, para tan­to, cita­mos as influên­cia do arcabouço teóri­co-metodológi­co wund­di­tianos e da políti­ca bis­mar­ck­iana, como tam­bém, do movi­men­to int­elec­tu­al –o pos­i­tivis­mo. Neste sen­ti­do, a com­preen­são do obje­to de estu­do –as psi­coses, por exem­p­lo– à maneira como se con­cebe, nas ciên­cias nat­u­rais, um obje­to de estu­do, ou seja, como um obje­to estáv­el e inde­pen­dente de sua relação com o meio e dos afe­tos de quem man­i­fes­ta os sin­tomas, o obje­to vis­to de for­ma iso­la­da (ou ao menos a ten­ta­ti­va de iso­lar este obje­to), evi­den­cia a ideia, ain­da cor­rente, de que as psi­coses são man­i­fes­tações nat­u­rais, no sen­ti­do de que já em sua raiz, em sua gênese está fada­da ao desen­ro­lar de seu desen­volvi­men­to sem que se pos­sa evi­tar. A ideia de desen­volvi­men­to patológi­co aí expres­sa, reforçam e ali­men­tam as teo­rias da hered­i­tariedade e de fatores genéti­cos como deter­mi­nantes no desen­volvi­men­to dessas patologias.

Os escritos de Krae­pelin, incluin­do o de sua maturi­dade, se apre­sen­tam de modo a cor­rela­cionar causa — cor­re­spondên­cia anatômi­ca –e efeito– sin­tomas man­i­festos, mas estas não são redutíveis uma à out­ra, mas man­tém sua com­preen­são nat­u­ral­ista das unidades de doenças. Porém, esta cor­re­lação, quan­do exis­tente, cor­re­sponde a ape­nas um dos aspec­tos da real­i­dade do obje­to, a real­i­dade ime­di­a­ta e empíri­ca, mas não é capaz de apreen­der sua essên­cia, que é a estru­tu­ra e a dinâmi­ca do obje­to. E, grosso modo, este nem é obje­ti­vo de suas inves­ti­gações, seu tra­bal­ho visa­va a solu­cionar um prob­le­ma, a ter uma função práti­ca e manip­u­lar o meio, a par­tir de seu conhecimento.

(A ciên­cia pos­i­tivista) Esta­va volta­do para a trans­for­mação da natureza com o intu­ito de dom­iná-la e de colocá-la a serviço dos inter­ess­es humanos. Por isso mes­mo, ele não pode­ria estar dire­ciona­do à bus­ca da essên­cia das coisas, mas à apreen­são daque­las qual­i­dades que pudessem ser sub­meti­das à men­su­ração e à quan­tifi­cação. (TONET, 2013 p.36–37)

Per­feita­mente alin­hado com os ideais de sociedade e de ciên­cia de sua época, Krae­pelin tece for­mas de agir na real­i­dade, de manip­u­lar esta real­i­dade foca­do na aplic­a­bil­i­dade práti­ca da ciên­cia e com isso, solu­ciona uma das questões mais impor­tantes para a psiquia­tria de sua época: o diag­nós­ti­co difer­en­cial das psi­coses. Ele próprio rela­ta em seu livro de memórias (KRAEPELIN, 2012), o tra­bal­ho de obser­vação e medição do tem­po de duração das crises psicóti­cas, o inter­va­lo entre uma e out­ra crise, metodolo­gia que ele ado­ta­va nos anos de tra­bal­ho no lab­o­ratório de Wundt.

Con­tu­do, todo seu per­cur­so de pesquisa nos demon­stra a sua opção pelo mod­e­lo hegemôni­co da época de se faz­er pesquisa, onde os fenô­menos humanos são trata­dos de for­ma iso­la­da e sem qual­quer relação com seu meio, o que demon­stra a noção implíci­ta de que ser humano é ser nat­ur­al que, emb­o­ra dota­do de razão que nos difer­en­cia de out­ras espé­cies ani­mais, ain­da assim é lido, aos olhos do pos­i­tivis­mo, como um ser cuja natureza é biológ­i­ca e não históri­ca, cujo biológi­co, ape­sar da razão, ain­da é o que deter­mi­na não ape­nas o desen­volvi­men­to de patolo­gias, mas a própria razão –con­sciên­cia– é inter­pre­ta­da como fru­to da hered­i­tariedade e não da relação com o meio.

Des­ta for­ma, a apreen­são da ontolo­gia, das bases epis­te­mológ­i­cas de Krae­pelin é fun­da­men­tal para enten­der­mos que seu mod­e­lo de psiquia­tria está cal­ca­do em uma con­cepção de ser humano e sociedade, his­tori­ca­mente data­da, alin­ha­da com os ideais con­ser­vadores da sua época. Não à toa, as ideias krae­pelini­anas são retomadas, ago­ra, a par­tir da déca­da de seten­ta do sécu­lo xx, e na primeira déca­da do sécu­lo xxi ali­adas ao recrude­sci­men­to do con­ser­vadoris­mo, sob o debate e a jus­ti­fica­ti­va da deman­da por uma ciên­cia experimental.

Ora, não podemos ser ingênuas e não encar­ar que a ciên­cia é fei­ta por dis­putas inter­nas de mod­os difer­entes de olhar para o mes­mo fenô­meno É impre­scindív­el, pois, apreen­der o debate das ciên­cias, inscrito den­tro do debate da luta de classes.

… para a nova classe dom­i­nante em ascen­são, para a bur­gue­sia, o desen­volvi­men­to irrestri­to das ciên­cias, sobre­tu­do das ciên­cias nat­u­rais, era uma questão vital. Ela jamais teria se con­for­ma­do com algu­ma res­olução da Igre­ja no sen­ti­do de que os novos con­hec­i­men­tos não dev­e­ri­am ser uti­liza­dos para mel­hor dom­i­nar as forças da natureza. Por essa razão, a ati­tude diante da obje­tivi­dade real, diante da questão de se as ver­dades das ciên­cias nat­u­rais repro­duzem efe­ti­va­mente a real­i­dade obje­ti­va ou ape­nas pos­si­bili­tam a sua manip­u­lação práti­ca, dom­i­na a filosofia bur­gue­sa des­de os dias de Belarmi­no até hoje, deter­mi­nan­do sua posição em todos os prob­le­mas ontológi­cos. (LUKÁCS, 2012 p. 48)

A análise onto-históri­ca do mod­e­lo krae­pelini­ano é uma das eta­pas necessária para o enfrenta­men­to das for­mas hegemôni­cas de se faz­er psiquia­tria que, em últi­ma instân­cia, como ten­ta­mos demon­strar, estão ali­adas a uma deter­mi­na­da com­preen­são de ser humano, rat­i­f­i­can­do uma deter­mi­na­da for­ma de pro­dução e repro­dução social a fim de sua manutenção e con­ser­vação. Não trata­mos, con­tu­do, de inval­i­dar o tra­bal­ho ímpar de Krae­pelin, mas de inter­pretá-lo a par­tir de novas bases, a par­tir das bases da Ontolo­gia do Ser Social, bem como, apon­tar cam­in­hos teóri­cos para sua superação.

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Notas

  1. Até os dias atu­ais é pos­sív­el encon­trar nos cur­rícu­los didáti­cos dos cur­sos acadêmi­cos de for­mação em Psi­colo­gia e espe­cial­iza­ção em Psiquia­tria as seguintes divisões: Psi­co­pa­tolo­gia Psiquiátri­ca e Psi­co­pa­tolo­gia Psi­canalíti­ca.
  2. Gri­fo nos­so.
  3. Gri­fo nos­so. Nos­so gri­fo aqui visa a, jus­ta­mente, apon­tar as semel­hanças no méto­do wund­tiano e, como vimos demon­stran­do ao lon­go deste tra­bal­ho, no méto­do krae­pelini­ano (que pode ser obser­va­do no gri­fo ante­ri­or na citação de Krae­pelin), pois ambos bus­cav­am a descrição do fenô­meno aparente, sem a inter­fer­ên­cia das inter­pre­tações e os sen­sações descritas pelos pacientes, ou seja, sem a inter­fer­ên­cia da sub­je­tivi­dade. Neste sen­ti­do, Krae­pelin parte dos estu­dos dos sin­tomas aparentes da demên­cia pre­coce, do que se podia obser­var no cur­so de sua evolução.
  4. A relação entre Krae­pelin e Wundt cabe um tra­bal­ho à parte, por hora ape­nas ilustra­do nes­ta pas­sagem, mas o que nos inter­es­sa apre­sen­tar aqui é a influên­cia do méto­do wund­tiano na psiquia­tria krae­pelini­ana.
  5. Tradução nos­sa.
  6. Gri­famos esta pas­sagem, pois ela demon­stra que Krae­pelin, ao con­sid­er­ar os méto­dos uti­liza­dos pelas ciên­cias mate­ri­al­is­tas e ide­al­ista estéreis de cien­tifi­ci­dade, entre­lin­has apon­ta que con­sid­era cien­tí­fi­co uma out­ra metodolo­gia, como vimos afir­man­do neste tra­bal­ho, o mod­e­lo pos­i­tivista.
  7. Tradução nos­sa.
  8. Tradução nos­sa.
  9. Tradução nos­sa.
  10. Tradução nos­sa.

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